terça-feira, 8 de julho de 2014

Dura, Envelhecida e Renovada

Itaquera
Pedra Dura
Envelhecida
Duras pedras
Duras penas
Sofridas
E pena
Que pena

Itaquera pra quem mora
Itaquera de quem adora
Pra chegar é difícil
Sair então, sacrifício
Já foi muito mais
Alguns poucos anos atrás

Itaquera, nossa terra
Quase no fim da leste
De gente igualmente dura
Feito o cabo da enxada
Feita da vida labutada
Feito tantos como meu pai
Que vieram do longe sertão
Feita também de mulher forte
Que tudo largam e tentam a sorte
Uma gente de bom coração
Que enverga, mas não cai
Não se acomoda no chão

Mas Itaquera ficou famosa
Apesar de ser antiga
Tornou-se enfim conhecida
Não por algum crime ou cativeiro
Nem por tráfico ou roubo de dinheiro
Virou notícia no mundo
Em noticiário internacional
Está cheia de novidade
Virou atração da cidade
Atração de todo o país
E do povo de outro lugar

Enfim, Itaquera mudou de vez?
A fama trouxe progresso outra vez?
Não, o povo não ficou rico não
Sequer melhorou a educação
Não está no auge de sua plenitude
Tampouco revolucionaram a saúde
Não construíram novos hospitais
Nem sanaram problemas sociais
Não herdou riqueza nem herança
Nem é menor a falta de segurança

Até pintaram nossas ruas
Recapearam outras tantas
Melhoraram alguns acessos
Só não veio junto o progresso
Que foi amplamente alardeado
Em propagandas de TV e rádio
Assim que foi informado
Que Itaquera teria estádio
Hotel, rodoviária e investimento
Chance de mais desenvolvimento
Mas essa promessa não é nova
Sempre tem a que se renova
Algo que parece genial
Trazer pra nossa região
Mais saúde, justiça e educação
Que transforma, liberta e perdura
Que incentive a produção de cultura
Dar para empresas isenção fiscal
Para tais polos comercial e industrial
Coisas que não são exclusivas
Do bairro e dos moradores
Anseios que a população precisa

E se pareço revoltado
Peço não julgue errado
Não acho de todo mal
O que foi feito afinal
Não estou de fato puto
Mas Itaquera merece de fato
Muito mais que túneis e viadutos


Manogon

sexta-feira, 20 de junho de 2014

Sarau - substantivo e verbo de ação

Gilberto Braz, Poeta de muitos recursos (foto Ligia Regina)
Na CA todos são tudo: Sueli Kimura, gestora do espaço, também fotografa (foto Luka Magalhães)
Akira Yamasaki e Osvaldo Higa, Poeta e Poeta (foto Luka Magalhães)
Grupo Diotespissio, adolescente na idade, jovem no espírito, adulto na performance (foto Ligia Regina)
Homens da Caverna, banda inspirada e inspiradora (foto Ligia Regina)


O devaneio poético é um dos mais profundos alargadores sensoriais no êxtase humano. No momento em que lemos (ou ouvimos, ou lembramos) a poesia, ela penetra no interior da gente como uma lava quente, um torvelinho incontido, um irresistível canto de sereia que modifica o ser, transforma o gesto, irradia uma luz sobre pontos obscuros do espírito. A arte nem tinha esse propósito em suas bases, porém, a capacidade do homem de pensar sobre si, sobre os outros e sobre o meio, faz com que a arte nasça e viva dessas flores efêmeras: o exato instante em que a pessoa é catapultada para outra esfera, pelo poder persuasivo de sua sensibilidade e beleza.
Entro nessa seara porque com essa onda de saraus à solta por aí, encontramos embasamento para pensar que essa cultura (a dos saraus) recupera traços que se contrapõem à massificação da indústria cultural. Sarau é, por sua própria natureza, heterogêneo, improviso, lírico, dramático, humano. Todo sarau tem seu próprio ritual. E a Casa Amarela, espaço cultural sediado em São Miguel, zona leste de São Paulo, tem o seu. Organizado desde 2011 por Akira Yamasaki, poeta e produtor, o evento é um reduto de resistência e excelência poética. No último domingo, dia 15, mesmo com jogo da Argentina pela Copa do Mundo, mesmo sendo período de férias – quando muitos viajam – ainda assim a Casa recebeu um bom público para sua degustação mensal de pepitas poéticas.
Akira principiou cantando (pela primeira vez passei por essa experiência de ouvi-lo ensaiando um “larari larará” lento, arfante, emocionado, emocionante), o que já indicava o grau de ineditismo da festa. Logo após, ele foi sucedido pelo escritor e jornalista Osvaldo Higa, que trazia a terceira parte de sua trilogia literária, o romance “Transmutação”, para ser lançado na Casa Amarela. Obra requintada, esse novo texto de Higa é o fecho de ouro de um artista comprometido com sua arte, seu tempo e seu povo. A terceira novidade do sarau era a presença da banda Homens da Caverna (Samara Oliveira – voz, Bruno Morelatto – voz e guitarra, Luciano Luthier – voz e violão, Erickson Almeida – percussão e Jéssica Nunes – percussão, teclado e sanfona), que trouxe para o sarau seu som peculiar e cheio de nuances. Mesclando ritmos diversos do Brasil e até de outros países, a banda faz um som “moreno”, gingado e malemolente. Outra atração desse domingo especial era o grupo teatral Diotespissio (Tayla Fernandes, PC Baco, Natasha Matos, Lucas Laureno, João Carlos Pinto e Bianca Fina). Ex- residente da CA, os "idiotas do hospício" ou "outro hospício" (como também já foram apelidados), trouxeram para o sarau um pequeno esquete baseado em histórias de São Miguel que estão preparando para correr o circuito, após o sucesso da primeira peça que encenaram, Nozland, de 2012.
Juntos com essas “atrações especiais”, desfilaram no microfone da Casa a fina flor que já freqüenta o espaço: Seh M. Pereira, Alexandre Santo, João Caetano do Nascimento, Santiago Dias, Lígia Regina e Éder Lima, Escobar Franelas, Carlos Bacelar e Rosa Rocha, Luka Magalhães, Gilberto Braz, Paulo Gonçalves e Vlado Lima, que trouxe sua carpintaria poético-musical, além da musa e filha para uma jam-session que foi além do seu humor contagiante e natural. Vlado dessa vez leu um emocionante poema dedicado ao filho. Para completar a festa, o palco amarelo também recebeu a carismática visita de José Severino Pessoa, escritor que está circulando nas quebradas para divulgar seu livro de memória, “Esta é Minha História”. Simpático e bem humorado, aos 67 anos o autor contou um pouco de sua vida, que estão relatadas no texto, afirmando também que tomou gosto pela coisa e já está escrevendo uma nova obra.
Revitalizados, depois da goleada que a CA enfiou na Argentina, saímos pra noite fria, felizes, cantantes, já antevendo o próximo sarau, que no dia 20 de julho receberá a visita personalíssima de Adriane Garcia, poeta de Minas Gerais. Até lá, o jeito é se enfronhar debaixo dos lençóis e edredons na companhia de diversas obras ofertados na banquinha da Casa, tomando um chá ou café bem quente, ou então visitar outros saraus na região e torcer por outra goleada do Brasil (se possível contra a Argentina), em 13 de julho. No dia do rock, quem sabe o tango dance samba?

(Escobar Franelas)
João Caetano ganhando autógrafo de Higa. De Poeta para Poeta (foto Lígia Regina)
Público do sarau (foto Luka Magalhães)
Santiago dias, Poeta de muitas palavras (foto Luka Magalhães)

terça-feira, 3 de junho de 2014

Não dá para controlar esse Blá-blá-blá

Por Luka Magalhães.

No último sábado, dia 31/05, nossa Casa Amarela realizou mais um Blá-blá-blá, uma roda de conversas que promove a discussão sobre a arte na periferia e as políticas de incentivos culturais, um evento que realmente valeu a pena participar.

Nessa edição do evento tivemos a presença de Ronelson Martins, representando a Comunidade Samba Jorge, entidade que promove a inserção sociocultural por meio do futebol e do samba. Com palavras simples, Martins nos contou um pouco da trajetória da entidade, que, tentarei aqui recontá-la.

Em 1952 nascia o time de futebol varzeano “São Jorge”, um dos mais antigos da região de São Miguel
A.R.C São Jorge de São Miguel Paulista, desde 1952.
Paulista, recordista em permanência no “Desafio ao Galo”, torneio onde os times da várzea se enfrentavam e que, enquanto a equipe fosse ganhando as partidas continuava na disputa. Segundo Ronelson o São Jorge permaneceu por vinte e duas rodadas seguidas no campeonato. Após o futebol, a roda de samba começava com a alegria e a partir dessa união o espírito de comunidade foi crescendo. Com o passar dos anos algumas pessoas tiveram de mudar do bairro e para não perder o contato, decidiram se encontrar mensalmente e em 14 de junho irão realizar o 81º Encontro com a Comunidade.

Acredito que nesse ponto de meu relato, uma pergunta está começando a surgir: “O que isso tem de importante?” principalmente porque muitos grupos fazerem o mesmo. Concordo que à primeira vista parece só mais uma história de como uma roda de samba surgiu, porém o que diferencia a trajetória da Comunidade Samba Jorge das outras histórias são as atitudes que os participantes assumiram de acordo com o que acontecia com seus amigos.

Comunidade Samba Jorge.
Por diversas vezes, alguns amigos que haviam se mudado não tinham condições financeiras de comparecer ao encontro. Para que o grupo pudesse se reunir, começaram a realizar a “vaquinha” para garantir a presença de todos. Dessa atitude nasceu a ideia de se manter a arrecadação e revertê-la em cestas básicas para os moradores da região que se encontravam em dificuldade.

Em outro momento, alguns membros começaram a usar drogas ilícitas. Entre expulsar do grupo, ou tentar ajudar o amigo a se livrar do vício, é claro que a comunidade optou por oferecer a ajuda. Segundo o relato de Ronelson, o grupo buscou por informações e em vez de confrontar os amigos, vítimas das drogas, diretamente, simplesmente abordavam os assuntos durante conversas, tentando fazem com que as pessoas se conscientizassem de seu problema. Como uma flecha certeira a estratégia atingiu seu alvo. A partir daí a Comunidade passou a realizar diversas campanhas e cada vez mais se fazer presente no cenário cultural.

Mas como sabemos, sempre teremos os oportunistas. Políticos de plantão sempre surgem do nada para se
Ronelson Martins
 aproveitarem de ações sociais que estão dando certo e insinuar que, se não fossem eles (os políticos) nada ali teria acontecido. Daí veio a resistência da Comunidade em aceitar tal tipo de ajuda. Com um entendimento de que certas pessoas não dão nada de graça, havia sempre a pergunta “O que ele quer de volta?” e isso propiciou com que a Comunidade não tivesse vínculo político ou partidário, realizando um trabalho sem o chamado “rabo preso”. Da mesma forma trataram os empresários do “capeta”, que se ofereciam para gerenciar o grupo, de forma com que o grupo seria extorquido, sacaneado e menosprezado em seu valor.

A história da Comunidade Samba Jorge nos encanta, pois podemos ver como uma ação social pode ser construída a partir de iniciativas simples, como possibilitar que um amigo compareça ao encontro, ou ajudar outro que se enveredou pelo caminho das drogas e tornar essas ações maiores do que jamais foi imaginado. Ações como essa merecem e devem ser divulgadas. Atualmente a Comunidade realiza palestras antidrogas, de conscientização sobre o câncer, campanhas de agasalhos, brinquedos, páscoa, natal, promove o acesso ao esporte por meio do time “ARC São Jorge”, incentiva a produção musical voltada ao samba de raiz e do Bloco Carnavalesco, mantém outra ação social na cidade de Suzano, onde promove a inserção digital.

E tudo isso nasceu na simples vontade de ajudar um amigo. Para saber um pouco mais da Comunidade Samba Jorge, basta clicar em Samba Jorge.

Parabéns a todos da Comunidade Samba Jorge pelo trabalho, cuja história me faz (novamente) citar Geraldo Vandré, em uma canção pouco conhecida, mas que diz algo das ações que essa gente boa vem fazendo a tanto tempo.




Porta Estandarte

Olha que a vida tão linda se perde em tristezas assim
Desce o teu rancho cantando essa tua esperança sem fim
Deixa que a tua certeza se faça do povo a canção
Pra que teu povo cantando teu canto ele não seja em vão



Eu vou levando a minha vida enfim
Cantando e canto sim
E não cantava se não fosse assim
Levando pra quem me ouvir



Certezas e esperanças pra trocar
Por dores e tristezas que bem sei
Um dia ainda vão findar
Um dia que vem vindo
E que eu vivo pra cantar
Na Avenida girando, estandarte na mão pra anunciar.


Geraldo Vandré


VAI BRASIL!




Luka Magalhães é analista de sistemas e nas horas vagas escreve poesia, contos e peças teatrais. Ministra a palestra “Eu nas relações interpessoais”, que trata do comportamento individual em situações cotidianas. Administra a página Eu Recomendo, no Facebook , que divulga os eventos culturais que acontecem principalmente na Zona Leste de São Paulo, e também os artistas populares que circulam pelo país.


Obs.: Resenha originalmente publicada na Coluna SP: Zona Leste, do blog da editora Nova Alexandria. Essa coluna é publicada toda terça, com assuntos relevantes da cultura produzida na zona leste. 

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Blablablá - A arte de quem tem o que falar

Blablablá e a indefectível "pose oficial" (foto Luka Magalhães)
Todos interagem no Blablablá (foto Andréia Gomes)


Quando o Blablablá iniciou, o Marinho Chagas, lateral esquerdo da seleção canarinho na copa de 1974, já tinha falecido fazia algumas horas. Uma pena! Pois o Blablablá – um dos eventos mensais da Casa Amarela – Espaço Cultural, localizada no distrito de São Miguel, na zona leste de São Paulo – discorria nesse sábado último justamente sobre futebol e arte. O projeto tem por meta defender, fazer o meio-de-campo e atacar assuntos pertinentes à produção cultural no universo periférico. Neste mês de maio, os convocados eram Fernanda Aragão, ex-goleira de futebol, formada em Educação Física (doutora) e cronista, autora do livro “Língua Crônica”; Cleston Teixeira, ator, cantor, compositor, produtor de tv e Ronelson Martins, metroviário, que fora do trabalho dedica sua vida à Comunidade Samba Jorge, um complexo de time de futebol, grupo de resistência cultural através do samba de raiz e os trabalhos filantrópicos da entidade.
O cantor e compositor Zulu de Arrebatá deu o pontapé inicial, com uma saborosa canja musical. A seguir, Cléston fez o primeiro gol, lendo de forma emocionada as letras de duas músicas de Raberuan, cantor e compositor falecido há dois anos, em que ambas prestam homenagem ao futebol, “Rua 2” e “Rua 2/Primeiro Quadro”.
Depois de apresentados os convidados ao público presente, o primeiro tempo teve a presença marcante da ponta-de-lança Fernanda, que foi a primeira a discorrer sobre o tema. Descontraída, fez uma breve explanação autobiográfica, detendo-se na prática do futebol na adolescência e juventude, e de como depois voltou sua atenção para a literatura. “Aos 29, 30 anos, resolvi que queria ser cronista”, disse. Cleston também repassou sua vida durante alguns minutos. Segundo ele, carioca da gema e americano apaixonado e que veio de uma família já envolvida com a prática artística, “futebol e arte estão na mesma proporção”.
Ronelson principiou contando a história pormenorizada do São Jorge, time de São Miguel na ativa desde 1952. Depois explicou que as rodas de samba no fim dos jogos é que fizeram nascer a idéia de um grupo de samba. Por último, explicou que algumas práticas da Comunidade São Jorge acabaram por desembocar em ações sociais que agora fazem parte do métier da entidade. “A gente faz samba de raiz”, afirmou, revelando em seguida o compromisso cultural do Samba Jorge, “pintou a oportunidade de sair dali mas daí a gente perderia a raiz”.
Conforme foram surgindo problematizações diversas trazidas pela atenta platéia, os três atletas foram driblando a curiosidade e fazendo gols cada vez mais certeiros. Fernanda de Aragão, à vontade como uma autêntica camisa 10, fez gols de cabeça, de voleio, de carrinho. Leu textos de Coelho Neto e Lima Barreto, o primeiro defendendo o futebol, o segundo atacando-o, isso lá nos princípios do século XX. Depois a atacante acerta uma bela cabeçada quando fala sem receio sobre a questão de gênero dentro do futebol feminino. “Questionada sobre meus interesses e afirmando que era heterossexual, o treinador sugeriu então que eu viesse vestida de casa e não entrasse no vestiário”, apontou ela com a experiência de seu apuro. Burburinho na platéia em torno do assunto, a provocação é ampliada para a questão de sexualidade dentro do futebol masculino. Zulu relembra o mítico goleiro do EC Bahia, time de várzea de São Miguel, cujo goleiro Gilson, homossexual assumido, ficou famoso não só pelas ótimas defesas, mas também jamais ter permitido qualquer gracejo quanto à sua orientação. Inquirido, Ronelson despista sorrindo, dizendo que no seu time “não tem preconceito, mas acho que no São Jorge não dá não”...
Cleston pega o violão, canta e encanta, mostra um traquejo nos dedos que lembra os dribles de Garrincha, a plateia – participante ativa da conversa – provoca, questiona, cobra, Ronelson é só timidez sorridente, parece um César Sampaio discreto, Fernanda lembra mais um Romário sempre serelepe, não erra o gol. O público presente participa, grita, urra, torce, vibra, também faz gols.
Eu, como sempre, faço o papel de advogado do diabo, tento acabar o jogo mas todos querem a prorrogação, a cobrança por pênaltis. Cleston reafirma a importância do Bom Senso FC e do mítico jogador Afonsinho, Fernanda diz que, em se tratando de cultura artística ou esportiva, admite “as duas condições, tanto o consumo pelo consumo quanto também o consumo que traz algo a mais”. E Ronelson, sábio e encabulado, pede desculpas por “não saber falar”. Sofro esse gol, mas empato: nós é que lhe devemos desculpas por talvez não saber ouvi-lo, Ronelson!
Chegamos ao fim, Cleston Teixeira dedilha o violão, solta a voz, todos nos abraçamos. Nesse jogo não houve perdedor.

Escobar Franelas
Akira Yamasaki, sempre certeiro nas palavras (foto Luka Magalhães)
Os convidados diante do mediador (foto Andreia Gomes)


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Chuva em Santo Antonio da Imperatriz

PEQUENA LEITURA DO POEMA “CHUVA EM SANTO AMARO DA IMPERATRIZ" de BIG CHARLIE

Tenho colocado alguns livros de literatura e poesia na cabeceira da minha cama, livros esses que chegam até mim através dos saraus e eventos promovidos na Casa Amarela. Gosto muito leituras pesadas, que coloquem em xeque as várias camadas obscuras do pensamento deixando os gêneros poesia e conto como formas de interlúdio ou ponte entre leituras de enunciados filosóficos. Não que a poesia não esteja contida em textos de maior alcance teórico, para isso basta se entranhar nos melancólicos e angustiados românticos e existencialistas. 
Faço essa introdução para chamar a atenção a um momento que me ocorreu no 23º Sarau da Casa Amarela após a leitura de alguns de seus poemas por Ligia Regina e Akira Yamazaki na abertura do evento, o que me fez ler numa só tacada o livro “Cavalos no Peito” do grande “Big” Carlos Alberto Rodrigues “Charlie” logo ao chegar em casa. Me chamou a atenção especialmente os poemas que se referem às lembranças da outrora pequena cidade, suas lembranças, hábitos cotidianos e imagens acerca de um naturalismo nostálgico. 
No entanto, nesse pequeno texto, faço uma breve leitura de um de seus poemas e o relaciono ao conceito de arte Naif, considerada por muitos como pinturas ingênuas, ou primitivas (do qual discordo) porém, dotadas de uma poesia e um lirismo extremos.

Quando passo os olhos por "Chuva em Santo Amaro da Imperatriz", (P.30 -Ato 13), percebo pinceladas suaves, cores vivazes em alguns trechos e a chuva lavando e suavizando o azul claro em segundo plano dos montes esverdeados num primeiro olhar. Quase ouvimos o som dos tambores e trovões. A imagem do rio seguindo seu caminho desbravando os limites da cidade, lambendo vidros e paredes nos transporta de volta à cidade grande. Ou será que a pequena cidade crescera? Acredito que não. Na linda imagem criada pelas vivas palavras do poema vemos bois, cercas e porteiras junto aos carros e corpos boiando nas águas. A chuva derrama suas lágrimas sobre o leito do rio. No entanto indiferente ao choro incontido do céu cinzento sem que suas águas sejam sempre as mesmas, ele, o rio, prossegue incólume, até o grande encontro mar adentro.

Uma outra cena contrasta com as imagens anteriores. O local? A soleira de uma casa em Santo Amaro da Imperatriz.

"Acordei com a chuva dando na eira
A ressaca me guiou até a beira
Soleira da casa
Cascata de lavar alma
Renove-me pra outra lavada" 

(ATO 12 - Despertar da Tarde. P.30)

Essa pequena pintura feita de palavras abre o caminho para a grande chuva purificadora que viria. O cheiro da terra molhada seria esquecida pela tragedia. Mas a cascata lavaria toda alma. Por inteiro. Ou os arrastaria, a todos, ao rio em sua grande ânsia de mar. Sinto os respingos dessa viagem. A umidade da cena não turva o brilho da pintura-poesia de Carlos Alberto. Cada palavra sua traz a experiencia do novo. Experienciado. Um mundo criado escrito por uma tinta-terra, que como um quadro de Diego Rivera germina sob nossos pés. Os cavalos do nosso peito se tornam alados.
Eder Lima – 25/05/2014

Virado na Virada - Um fim de semana cultural

Olá, caros leitores.

O fim de semana passado, assim como tem sido ultimamente, foi mais uma prova de que os olhos estão voltados ao extremo leste da cidade de São Paulo, como bem diz meu amigo Escobar Franelas, em especial Itaquera e adjacências.

Por conta do primeiro jogo oficial no Estádio Itaquerão, Arena Corinthians, Arena São Paulo, Arena Itaquera, ou seja lá qual for o nome que realmente será dado à nova casa do Timão, tivemos um aporte de jornalistas, torcedores e curiosos em terras nossas. Alguns ali estiveram pela primeira vez. Nesse caso, independente de você ser corinthiano ou não, vale pensar na região não só como fonte de notícia das páginas policiais ou como matéria de uma terra distante e precária. É bem verdade que o estádio em si não trouxe modernidade, mais infraestrutura para o bairro (além de túneis e viadutos), mais investimentos em saúde, educação e moradia. Continuamos com as mesmas dificuldades para atravessar a cidade para trabalhar e com os velhos problemas de outrora. Há muito a melhorar, mas essa exposição é um auxílio para que a população passe a cobrar o melhor uso de seus impostos e o valor de seu voto.

Porém, minha abordagem aqui não é meramente panfletária. É preciso enaltecer também a contribuição cultural da região nesse fim de semana. Cito aqui dois eventos que partilhei: a participação do Sesc Itaquera na 10ª Virada Cultural da Cidade de São Paulo e o 23º Sarau da Casa Amarela de São Miguel Paulista.

A programação do Sesc Itaquera, local de ampla área verde e com diversas atividades de cultura e lazer, começou na noite fria de sábado com um show eletrizante de Edvaldo Santana e banda, que esquentou o público com ritmos que vão de samba e xote a reggae e blues. Edvaldo é egresso de São Miguel Paulista, ex-integrante do grupo Matéria Prima e um dos muitos artistas que formavam o MPA (Movimento Popular de Arte); é uma figura carismática e extremamente conhecida no meio artístico, tendo feito parceria com grandes nomes como Tom Zé, Paulo Leminski, Ademir Assunção, Haroldo de Campos, Arnaldo Antunes, Lenine, Além dos bons e velhos parceiros de MPA. Na sequência da programação do Sesc, Zé Geraldo cantando com sua filha Nô Stopa e participação especial de Chico Lobo, violeiro, cantor e compositor mineiro. Zé Geraldo, por si só, já contagia a massa e faz com que todos cantem seus sucessos, tanto os antigos, porém, com temas ainda atuais, quanto os mais recentes. Nô Stopa cativa pela bela voz, a presença de palco e o carisma. O convidado mineiro Chico Lobo deu um show à parte, extraindo belíssimos acordes de sua viola de 10 cordas. Essa foi a primeira etapa, pois já sabia que viria muito mais no domingo.

Sarau contagiante tem de tudo um pouco, não é mesmo? O 23º Sarau da Casa Amarela de São Miguel foi assim. Desde o início até o fim, desfilando o talento de seus artistas, uma paleta multicor, com texturas e nuances para compor o belo quadro eclético que tão bem representa nossa diversidade cultural, um a um, em grupo ou sozinhos, assumiam a batuta e comandavam o espetáculo naquele palco, que apesar de aparentemente pequeno, se agiganta com a presença do artista. O sarau tinha como pontos centrais o lançamento do livreto de Carlos Rodrigues (Big Charlie), Cavalos no Peito, já comentado aqui por João Caetano do Nascimento; a promoção, por meio de um “segundo” lançamento, do livro de Escobar Franelas, Itaquera: uma breve introdução; e o convidado igualmente especial, Adilson Aragão e Banda, apresentando músicas da Ousados e Seminovos e de outros projetos dos músicos. Adilson relembrou seu tempo de banda de formatura e barzinho, onde tocava todos os gêneros e outros “causos” mais pitorescos. Brindou a todos com músicas que iam de MPB ao rock clássico e blues, fazendo a abertura e o encerramento do evento.

Por aquele cantinho sagrado, com microfone aberto e equipamento a postos, também passaram Big Charlie, Luka Magalhães, Manogon, João Caetano do Nascimento, Ligia Regina e Eder Lima, Arnaldo Bispo, Euflávio, Gilberto Braz, Seh M. Pereira (que trouxe beleza aos olhos e ouvidos com um quadro e poesias de Neuza Ladeira, artista plástica e poeta mineira), Rosinha Morais, Inês Santos (recitando poemas seus e da poeta capixaba Cris de Souza), Punky Além da Lenda, Sacha Arcanjo, Romildo de Souza, Ceciro Cordeiro, Oswaldo Tiveron e Akira Yamasaki.

Por esses motivos, termino esse post com a sensação de que as coisas no extremo leste tendem a melhorar, se não no aspecto estrutural e “desenvolvimentista”, como diria Odorico, ao menos em cultura e lazer. Não se trata de distração para aliviar e sim de cultura para formar, informar e transformar. E que venha dia 30 de maio, com o Sarau da Casa do Chefe, no centro de Itaquera (ao lado do Terminal e do pontilhão da radial), a partir das 19h. E dia 31 tem o BláBláBlá na Casa Amarela, a partir das 16h, com a temática Futebol e Arte, sob a batuta de Escobar Franelas.

* Texto originalmente publicado dia 20/05/2014 na coluna da Zona Leste do Blog da Editora Nova Alexandria, a convite do ilustre Jeosafá Fernandez Gonçalves.

Manoel Gonçalves (Manogon)
Designer gráfico, ator e poeta. Escreveu por dois anos e meio para o blog e site Desabafo de Mãe, como pai convidado, para expor seu ponto de vista sobre a difícil e prazerosa arte de criar e educar as filhas. Participou também de outros blogs literários. Frequenta alguns saraus na grande Sampa. Mantém o blog Coisas de Manogon.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Como foi a virada cultural, quer dizer, o sarau da Casa Amarela

Adilson Aragão: humor a serviço da boa música (foto: EF)
Big Charlie: poesia lírica, densa e debochada em "Cavalos no Peito" (foto: EF)



Mais de meia-noite, tinha chovido à tarde, uma brisa gostosa soprava em nossos rostos e um aroma de ar úmido, terra molhada, subia até os narizes. Eu e Raquel voltávamos do Terminal Rodoviário do Tietê. Tínhamos ido encontrar – apesar do cansaço extremo – a Raíra Moraes, que tinha baixado na Sampalândia para um bate-volta durante a Virada Cultural. Como não conseguimos sincronizar um encontro decente, fomos dar um abraço no momento em que ele embarcava de volta para Beagá. Felizes, contemplávamos uma lua minguante que prenunciava uma segunda-feira tranqüila. Apesar de muitos carros na Rodovia Ayrton Senna e Jacu-Pêssego, um trânsito tranqüilo permitia-nos que ouvíssemos com prazer aveludado “Belém. O Azul e o Raro”, cd que traz a poesia caudalosa de João Jesus Paes Loureiro, alguns musicados por Salomão Habib, um mimo da Raíra pra gente.
Em alguns momentos balbuciávamos palavras. Estávamos enlevados, embriagados pela tarde auspiciosa que tínhamos passado em boa companhia, durante o Sarau da Casa Amarela.
Capitaneado pelo infatigável Akira Yamasaki, e com o suporte luxoso de Sueli Kimura, Celinha Yamasaki, Eder Lima, Ligia Regina e Clarice Yamasaki, o sarau foi um desfile de pratos finos para nossos ouvidos e olhos agradecidos. Pelo palco da CA passaram naquela tarde e noite, Adilson Aragão e sua banda Ousados e Seminovos, Big Charlie, Luka Magalhães, Manogon, João Caetano do Nascimento, Lígia Regina e Éder Lima, Arnaldo Bispo, Euflávio, Gilberto Braz, Seh M. Pereira (exibindo em primeiríssima mão um quadro que ganhou da artista mineira Neuza Ladeira e recitando um poema da mesma), Rosinha Morais (debutando no espaço com belos poemas), Inês Santos (recitando poemas seus e da poeta capixaba Cris de Souza), Punky Além da Lenda (exibindo seu humor sempre cortante e um certo dote violonístico), Sacha Arcanjo (embevecendo o público com uma canja “democrática” de seus maiores sucessos – eu, aliás, escolhi “Boca Aberta”, uma da músicas mais líricas e pungentes do enorme repertório dele e Raberuan), eu, Romildo de Souza, Ceciro Cordeiro, Oswaldo Tiveron (cantando o “Pai Nosso” à capela) e o mestre de cerimônias Akira Yamasaki.
Vale lembrar que o evento era dedicado à obra do risonho Adilson Aragão, cantador de larga data que trouxe sua mini big band, Ousados e Seminovos, preenchendo o diminuto palco com músicas que contemplam gêneros como o rock, a bossa nova e o samba, entre outros. Biscoito fino para a plateia. E São Pedro gostou tanto do que estava acontecendo ali que brindou a Sampalândia todinha com a beleza de suas águas, dando um agradinho de pedras de gelo como brinde.
Antes, a Casa Amarela lançou oficialmente “Cavalos no Peito”, obra poética vertiginosa do Carlos Alberto Rodrigues, o escrachado videomaker "oficial" do espaço, popularmente conhecido como Big Charlie. A poesia do Big é big em todos os aspectos, conforme já relatei na apresentação do libreto. A obra foi criada e conceituada por um conselho editorial criado pelas mente incansável e inspirada de Akira, no qual ele me incluiu junto com Sueli Kimura, Luka Magalhães, João Caetano do Nascimento e Manogon. É a primeira incursão da CA pelo caminho editorial através do selo recém-criado, o Casa Amarela São Miguel Paulista Edições. Breve outras virão à luz.
No entrecho entre a apresentação de Big Charlie e o show de Aragão e banda, convidado por Akira, pude discorrer um pouco sobre o meu trabalho mais recente, “Itaquera – Uma Breve Introdução” (Editora Kazuá), um best-seller doméstico que está me dando muitas alegrias e fazendo com que durma menos que as costumeiras seis horas por noite.
Num fim de semana atípico, com Virada Cultural em Sampa, inauguração da Arena do Corinthians em Itaquera, uma chuva providencial e tanta gente bonita e amiga pra se beijar e abraçar, fica a dúvida se a poesia não estará extrapolando nossos gestos. Fico sempre com a sensação de que a arte mais improvável made in Casa Amarela seja o cultivo de amigos, nesse jardim tão simples que tudo e todos, juntos e misturados, ajudam a semear, colher e distribuir.
O que é fato, porém, é que escrevo essas linhas nessa outonal terça pela manhã, mas ainda profundamente tocado pelas lembranças de um domingo que não termina, aqui em minha memória.
(Escobar Franelas)
CA: espaço para todos os cantos (foto: Raquel Ramos)

Lígia e Eder: fina flor da musicopoesia (foto: Raquel Ramos)

Seh trazendo Neuza Ladeira ao quadrado (foto: EF)

Rosinha Morais debutando no palco da CA (foto: EF)

Inês Santos debutando no palco da CA (foto: EF)

Punky: cultura, história, arte (foto: EF)

Euflávio: outro debutante? (foto: EF)

Sarau da CA: não para, não para, não para (foto: EF)

Sacha e Akira: foto que dispensa legendas (Raquel Ramos)

Tiveron: presente para o sarau (foto: EF)
Do sarau da CA até a rodoviária, 25 km só pra abraçar Raíra (foto: Raquel Ramos)

CA em  movimento (foto: arquivo S. Kimura/A. Yamasaki)
Retrato "oficial" pós-sarau (foto: arquivo S. Kimura/A. Yamasaki)