sábado, 27 de fevereiro de 2016

I&I mediado por Claudio Gomes: como foi?

O desafio do Inéditos & Inacabados deste fevereiro era responder uma carta enviada pelo mediador convidado, o poeta e educador Claudio Gomes da Silva. Eis a carta:

Sampa, verão#16. Caro EF, até aqui cheguei, se necessário edite e salve!

Achar-se para perder-se e seus (des)contínuos contrários.
“Poesia, ponte em cima\ de abismos não abertos\
ainda ou flor que anima\ a pedra no deserto”
Nelson Ascher
Entre as aparições,dois caminhos imprimiram presença ao preparar e escolher mais presente que provocação aos participantes da edição fevereiro#16 da série Inéditos Et Inacabados,conduzida tão passada a limpo por Escobar Franelas para a Casa Amarela, foram necessários muitos deitar o corpo na cachoeira corona, para resfriar também por dentro o coco desse careca que empacota o presente mimo.
Ainda assim um tanto tonto entre dois polos energizados, ir à busca do papelpalavraadequado para embrulhar as idéias que fossem mais legítimas ao desejo íntimo do sujeito, fosse de brocados ou biscuit bacana ou a folhada bananeira, seria necessário algo que fosse mais que a luz no fim do túnel, que pudesse confirmar a voz que contra pontava o coração: “não devemos falar a língua dos outros e nem utilizar o olhar dos outros, porque nesse caso existimos através do outro. É preciso tentar existir por si mesmo” é o Evgen Bavcarno filme Janela da Alma. Então para que se achar, além de se perder para fluir ainda mais o jogo¿.
Talvez fosse necessário consultar o melhor amigo do homem e perguntar ao cão domesticado quais as sensações de rodar atrás do próprio rabo em sentido horário ou antí. A beleza está nos olhos de quem vê! Mais uma vez esses dias de viver #16 impõe outra deliciosa saída parafora do ramo, do rumo, no limo do remono ar de fora...“Com tantas coisas para tomar emprestado, sinto-me feliz se posso roubar algo, modifica-lo e disfarçá-lo para um novo fim!” Enrique Vila-Matas:perder-se, achar-se, Inspirar o ser! Inté expandir até o nada.
Perdido bem antes do meio do século mais esperado. Achar um mimo para a festa alegria e deleite dos parceiros de viagem é um exercício de arredondarseixos, cuja natureza mais íntima é rolar águas... perder-se... ”as coisas não são todas tão compreensíveis nem tão fáceis de expressar quanto geralmente nos fizeram crer. A maioria dos acontecimentos é inexprimível; ocorrem no interior de um recinto no qual jamais palavra alguma adentrou. E mais inexprimíveis do que qualquer outra coisa são as obras de arte”... trecho deuma carta deRainer M. Rilke. Cartas costumam ter um destino certo. O destinatário de Rilke é um jovem poeta. Ora, segundo as virtualidades espaço temporais #16, jovem é quem quer!
Então vale tomar essas dúvidas e dividi-las ao bel prazer em descaminhos contínuos ou não. E tem razão aquel@s que acreditaremsempre tem mais uma vida no drive, se a bateria acabar antes do fim do túnel.
Advertência: Vale roubar! Há multa para desperdício!

Cláudio Gomes, verão #16.



- Agora, o poema-resposta feito por Enide Santos:
Narciso no escuro
Olhos atentos pela janela ela fitava o princípio da estrada como se dela fosse emergir um sonho vestido de pura realidade.
A voz ainda não inaugurada naquele dia ressurge rouca e compassada balbuciando palavras implantadas na antemanhã. Ditos de um sonho ainda não recordado com clareza, ainda não compreendido com firmeza. Do lado de fora da janela todos os sons se encontram e todos os aromas se desmontam, porém, ela permanece ali inerte em seus pensamentos. Inesperadamente trava os olhos, suspira fundo, forte como se pudesse parar o mundo com seu ar. Sorri, vira-se para a porta que ainda permanece trancada adorna-se da maçaneta com a voracidade de um animal acuado jorra-se para fora destrancando seus dias presos por um passado infectado de amargura.
Ali naquele instante todas as horas perdidas são jogadas fora não a afetam mais de forma alguma, não a incomodam, não mais roubam sua vida. O sonho que nunca sonhou o reflexo que nunca imaginou verteram do breu. Nem sempre quem olha vê. Inacabado...
Enide Santos 27/02/15


- a captação do instante por Akira Yamasaki:
último domingo
apenas olhei
para o banco de reservas
e pedi substituição

apenas arriei
os meiões até os tornozelos
e desamarrei os cadarços
tirei a camisa suada
coloquei-a nos ombros
e saí sem olhar para trás
não apontei os dedos
para os céus nem maldisse
o sentido da vida
não teve jogo de despedida
nem placa de homenagem
pelos gols marcados
não teve volta olímpica
nem discursos ou abraços
ninguém notou
apenas saí
como se saísse para comprar
pão e leite na padaria
akira - 21/0/2016.

- o eu profundo de Rosinha Morais:
Íntimo
No meio da noite
Breu
Ateu sonha
Realidade
Dista fantasia
In-variada verdade
Resposta
Goteja frenética
Em cálice
Cálida
Adormece o mantra
Nada
Em eterna vontade
Silenciosa sedução
Sacrifica alma
Ao corpo
Que mente
Solidão.
(Rosinha Morais)


- a Andréa Ferraz de Campos nem foi ao encontro, por conta de compromissos, mas mandou  a "lição de casa", muito perspicaz, por sinal:


Sampa, março de 2016, chove...
As datas nem sempre são propícias. Muitas vezes nos fazem ausentes de encontros, quando o que gostaríamos é de estar presentes. E presentear e compartilhar, através de algumas palavras, esse ajuntamento de ideias.
Mas ... vamos enganando o tempo, mais um pouquinho...
Que bela surpresa Cláudio Gomes, Escobar e sempre, A Casa Amarela!!!
Eis que me deparo com uma carta. Novamente e tão inesperadamente uma carta.
Eu que já fora afeita, adepta e amante incondicional desta tão primária forma de comunicação, encontro-me diante de um verdadeiro desafio! Olho para o teclado, porém me aproprio de caneta e papel para meu total deleite, e alento meu coração com memórias de outras datas.
Sempre amei escrever e receber cartas. Vivi nelas, e com elas emoções críveis e incríveis. Esperar pelo correio fazia parte desta magia, do inusitado e da energia que uma carta mobiliza dentro de nós.
Ainda hoje, depois de muitos anos, tenho guardada uma pequena caixa de papelão com várias relíquias de tamanhos, formas, cores e conteúdos dos mais variados. Essa pequena “arca do tesouro”, perdura entre meus pertences, como por encanto, conseguindo sobreviver há vários rituais de desapego. Essa senhora, já desengonçada em sua estrutura de papelão, presa apenas por algumas fitas colantes; passa pelo TEMPO rindo deste, muito sutilmente, para não chamar a atenção. A tal caixa age como a esgueirar-se pelos cantos, encontrando lugares obscuros, gavetas, armários e até fundos de guarda-roupas, embaixo de camas, sempre querendo estar bem escondidinha a cada ataque da turma da limpeza.
Sento-me à beira da cama, puxo uma xícara de chá como para um ritual, abro essa pequena caixa e, em meio à poeira, uma leve névoa toma conta do quarto. Minha memória viaja e meu coração pede um tempo. Uma longa e profunda respiração acalma todos os meus sentidos, então aguçados. No seu interior algumas letras parecem pular das linhas, penduradas no papel, já bastante puído. Marcas colorem o papel e as tintas desbotam. Histórias e estórias que trazem dentro de si, O TEMPO... este mesmo TEMPO que teima em ser o Senhor de Todas as Coisas! Persona, muitas vezes, non grata!
Mas note que se olharmos para dentro de nós, mais detalhadamente e bem. Se buscarmos em nós mesmos, lá no fundo, perceberemos que o TEMPO é sim: Senhor! Mas não em todos os lugares. Neste exterior, nestas paragens aqui deste Dharma, nesta Roda Viva, nesta Matrix. Sim, sim, sim! Aqui nós nos rendemos ao velho TEMPO, e como Senhor quer é, o obedecemos. E aos poucos podemos nos sentir sendo ultrapassados, “passamos” com o TEMPO. Agora, lá no fundo, na essência, no cerne das coisas, no interior do TODO, o tempo existe sim. Se movimenta, porém não modifica o que já havia. Algo dentro de nós, “não dá bola” pro TEMPO, segue inalterado desde sempre, “paratodoosempre”... Age como se ele não tivesse passando, formando pretéritos perfeitos, imperfeitos ou mais-que-perfeitos... nos faz ser e sentir como sempre fomos, como somos, como nos conhecemos..
Então, como louca, revivo todos estes sentimentos, essas histórias e estórias guardadas dentro desta pequena caixa de papelão, e fecho “a danada” com um sorriso de canto. Me sinto, por instantes, muito poderosa por poder aprisionar o tempo ali, naquele pedaço de papelão dobrado. Recoloco a tampa da caixa, e a deixo em algum lugar qualquer, neste quarto, novamente e penso: sim!! Somos eternos! Em nosso mais íntimo, em nosso coração, em nossa alma. Somos eternos no agora!
Saudações caros amigos,
Andréa Ferraz de Campos


- o flash poético de Sueli Kimura, que ela batizou de "haikai de pé-quebrado":
pote cheio 
guloseimas
criança indecisa
só observa
(Sueli Kimura)


- o profundo mergulho minimalista de Railda Herrero:
tinha uma
folha rasgada
no meio do
meu caminho

no meio do meu caminho
tinha uma folha
rasgada.

nunca vou
escrever 
toda a verdade.

porque no meio
do meu caminho
tinha uma folha
pela metade
(Railda Herrero)




- a resposta pouco linear de Escobar Franelas:
Claudio, boa noite!
Como vai? Tudo bem? Espero que sim.
Aqui também está tudo bem. Tivemos um ano esquisito em 2015 mas espero sinceramente que 2016 seja mais afetuoso conosco.
Neste momento estou lendo a cartinha simpática e enigmática que você enviou. Posso estar enganado, mas me parece que ela propõe um jogo, uma brincadeira, uma maneira lúdica de interação entre idéias e palavras. Posso também estar enganado, mas creio que sua intenção, antes de tudo, é nos tirar do conforto da interpretação fácil, do diálogo industrializado, que só reproduz falas prontas para idéias concebidas sem elaboração artesanal.
Artesanal.
Creio – posso estar enganado! – que esta palavra traduz quase que com perfeição um dos vetores pelo qual você nos provoca. Pois artesanato nos remete à idéia de confecção manufaturada, longe de toda maquinaria que nos aliena dos processos integrais. Se for isso – e repito: posso estar enganado! – estamos muito próximos, Amizade. Permite me chamá-lo assim? Amizade. Gosto de chamar meus amigos de Amizade. Dá a todos eles (inclusive você) uma caracterização subjetiva, bem sei, mas também afetiva.
É isso que considero de mais relevante em minhas relações, inclusive a nossa: a possibilidade de acrescentarmos dentro dela o poder da afetividade através da linguagem múltipla. Isso tanto pode estar na palavra despida (através da voz ou verso) quanto no gesto, no sorriso, no abraço, aperto de mão, beliscão, empurrão, tapa ou afago.
Claudio, li, reli, tresli seu texto. Ah, agora mesmo lembrei de outra coisa: vai me desculpando por não entendê-lo todo. Culpa minha, que tenho dificuldade em lidar com abstrações, inclusive as minhas. Confesso, todavia, que caprichei no esforço, fui fundo, tentei... Alguma coisa, porém, ficou fora do linha magnética, não atraiu o raciocínio que ensejei, desejei, esforcei por alcançar. A minha compreensão de certos fatos, textos e vivências vai de um reconhecimento intuitivo que precede a inteligência técnica. É a vitória da inteligência sensorial. Creia, eu sou muito feliz assim. Mas aí dei de cara com a “pedra do caminho” drummondiana, que foi o desafio que você lançou. E nela não soube penetrar, no máximo contornar.
Mas todo esse esforço para traçar um diálogo (mínimo que fosse) contigo, foi, paradoxalmente, um destravar outras fechaduras que impediam o fluxo livro do pulso criativo aqui. Acredite, depois que o li pela enésima vez (sim, foram várias incursões pelas profundezas barrocas de seu texto), percebi que a sua poeticidade logrou êxito em mim, tanto que acabei por compor algumas peças (poetículos, textículos, contículos), devidamente influenciados por seu manancial.
Isso é ou não é a beleza orgânica do processo todo? Tirar da sua flor o líquor vital que irá semear novas flores por aí...
Por tudo isso, e depois de talvez nem ter falado exatamente o que gostaria ou precisava, me despeço, não sem antes agradecer o carinho das vivências contigo.

Caetanamente, deixo um abraçaço. 
(Escobar Franelas)

- já o Luka Magalhães matou o pau e mostrou a cobra:
No interior de um recinto,
O cachorro gira e gira.
Expressões inexprimíveis,
De coisas boas e incompreensíveis
De línguas e gírias
De tudo que pressinto.

Torno, pois o papel
Em palavra adequada
Segurando o véu
Da poesia mal olhada

Se a beleza não nos vê
No verso do desejo
Há então de nos ler
Durante um cortejo

Se jaz em nossas palavras,
Que a noite, rebuscamos
No sentido, amarguradas
Da vida que emprestamos





Arte de Luka Magalhães


quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

Sábado tem Inéditos & Inacabados na CA




É só responder à provocativa carta abaixo, seja com um conto, uma crônica, uma frase, poema, outra carta, e-mail etc. Feito isso, apareça por volta das 10 matina, leia, comente as respostas dos outros,  duvide, inquira, provoque...


Sampa, verão#16. Caro EF, até aqui cheguei, se necessário edite e salve!

Achar-se para perder-se e seus (des)contínuos contrários.
“Poesia, ponte em cima\ de abismos não abertos\
ainda ou flor que anima\ a pedra no deserto”
Nelson Ascher
Entre as aparições,dois caminhos imprimiram presença ao preparar e escolher mais presente que provocação aos participantes da edição fevereiro#16 da série Inéditos Et Inacabados,conduzida tão passada a limpo por Escobar Franelas para a Casa Amarela, foram necessários muitos deitar o corpo na cachoeira corona, para resfriar também por dentro o coco desse careca que empacota o presente mimo.
Ainda assim um tanto tonto entre dois polos energizados, ir à busca do papelpalavraadequado para embrulhar as idéias que fossem mais legítimas ao desejo íntimo do sujeito, fosse de brocados ou biscuit bacana ou a folhada bananeira, seria necessário algo que fosse mais que a luz no fim do túnel, que pudesse confirmar a voz que contra pontava o coração: “não devemos falar a língua dos outros e nem utilizar o olhar dos outros, porque nesse caso existimos através do outro. É preciso tentar existir por si mesmo” é o Evgen Bavcarno filme Janela da Alma. Então para que se achar, além de se perder para fluir ainda mais o jogo¿.
Talvez fosse necessário consultar o melhor amigo do homem e perguntar ao cão domesticado quais as sensações de rodar atrás do próprio rabo em sentido horário ou antí. A beleza está nos olhos de quem vê! Mais uma vez esses dias de viver #16 impõe outra deliciosa saída parafora do ramo, do rumo, no limo do remono ar de fora...“Com tantas coisas para tomar emprestado, sinto-me feliz se posso roubar algo, modifica-lo e disfarçá-lo para um novo fim!” Enrique Vila-Matas:perder-se, achar-se, Inspirar o ser! Inté expandir até o nada.
Perdido bem antes do meio do século mais esperado. Achar um mimo para a festa alegria e deleite dos parceiros de viagem é um exercício de arredondarseixos, cuja natureza mais íntima é rolar águas... perder-se... ”as coisas não são todas tão compreensíveis nem tão fáceis de expressar quanto geralmente nos fizeram crer. A maioria dos acontecimentos é inexprimível; ocorrem no interior de um recinto no qual jamais palavra alguma adentrou. E mais inexprimíveis do que qualquer outra coisa são as obras de arte”... trecho deuma carta deRainer M. Rilke. Cartas costumam ter um destino certo. O destinatário de Rilke é um jovem poeta. Ora, segundo as virtualidades espaço temporais #16, jovem é quem quer!
Então vale tomar essas dúvidas e dividi-las ao bel prazer em descaminhos contínuos ou não. E tem razão aquel@s que acreditaremsempre tem mais uma vida no drive, se a bateria acabar antes do fim do túnel.
Advertência: Vale roubar! Há multa para desperdício!

Cláudio Gomes, verão #16.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Texto do poeta Mario Neves sobre o 41º Sarau da CA

Foto Luka Magalhães


Dizem por ai que está se iniciando o ano novo chinês, mas que ano novo chinês coisa nenhuma, quem verdadeiramente principia e o nosso 2016 que como sempre começa após o primeiro Sarau da Casa Amarela. Este ano em sua edição de número 41 e realizado neste final de semana dia 14 de fevereiro.
A partir das quinze horas os nossos artistas foram chegando e formando o maior concentrado cultural por metro quadrado da Zona Leste, enriquecido ainda por amigos do Sarau da Maria da Zona Norte.
No comando do mestre Akira Yamasaki e coadjuvado pelo polivalente Luka Magalhães o evento teve inicio sem pressa e regado pela saudade de todos após o recesso de fim de ano.
Se apresentaram como convidados especiais neste sarau o grande cantador Mauri Noronha acompanhado do extraordinário Chico Pedro o mago da flauta e de instrumentos andinos. Ainda o escritor Laercio Silva lançando seu novo livro e sem faltar o tradicional microfone aberto para as celebridades da casa.
Além da parte artística, do aconchego que só o Espaço Casa Amarela consegue dar, merece ser citado o tradicional café e a mesa farta de guloseimas e petiscos organizada por Sueli Kimura.
Nem me atrevo a citar o nome dos poetas e cantores que subiram ao palco nesta tarde-noite, foram tantos que o risco de esquecer um deles seria grande e imperdoável.
O tempo não parava e a cada apresentação iam se formando as horas, lá fora a noite já tingia o céu de negro, enquanto dentro artistas do povo com música e poesia pintavam uma aquarela de cultura e arte.
Foram horas de um show ininterrupto e vibrante, que foi além das vinte e uma horas do domingo e a confraternização dos presentes continuou mesmo depois da foto de encerramento do encontro.
Isto é Casa Amarela! Um oxigênio que quem respira uma vez não consegue mais viver sem. Eu penso que a Casa Amarela tem propriedades medicinais e que a qualquer hora pode ser até recomendada por médicos e terapeutas. A nobre poeta Rosinha Morais veio ao evento ardendo em febre e em contato com a poesia e irmãos de letras se curou de seu estado febril.
O que faço aqui é apenas um resumo de uma grande festa, as minhas palavras são acanhadas e pobres demais para dizer o que é realmente acontece num sarau da Casa Amarela.
Amigos! Saudações musicais, culturais e poéticas! Feliz Ano Novo! (Mario Neves)

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Resenha de Arnaldo Afonso para o 41º Sarau da CA

O 41º Sarau da Casa Amarela, acontecido no último domingo, dia 14 de fevereiro, ganhou uma singela resenha de Arnaldo Afonso. A ele, nós, do coletivo A Casa Amarela - Espaço Cultural, externamos uma gratidão do tamanho do universo em expansão. Abraçaços, mermão!

Acesso: Resenha de Arnaldo Afonso para o Sarau da CA



domingo, 7 de fevereiro de 2016

Casa Amarela - ano 6

A Casa Amarela - Espaço Cultural reinicia suas atividades em 2016 (6º ano de atividades ininterruptas), com dois eventos: o Sarau da Casa Amarela, dia 14/2 a partir das 15h, cujo organizador Akira Yamasaki traz os seguintes convidados: os cantadores Mauri de Noronha e Chico Pedro. Também será o lançamento do mais novo livro de Laércio Silva. Através de seu heterônimo Aléssio  Forté, o poeta estará autografando sua obra O Draconiano Paradoxal Clamor em Hecatombe ou ode a elegias axiomáticas.
Arte de Luka Magalhães


No dia 27/2 a partir das 10h o poeta Claudio Gomes da Silva estará mediando a roda de criação literária Inéditos & Inacabados

Arte de Luka Magalhãezs

Criada por Escobar Franelas, o I&I dessa vez tem como tema a resposta a uma estimulante e enigmática carta de Claudio Gomes enviada por e-mail. A resposta pode ser em qualquer gênero literário. 
Ei-la:

Sampa, verão#16. Caro EF, até aqui cheguei, se necessário edite e salve!

Achar-se para perder-se e seus  (des)contínuos contrários.
“Poesia, ponte em cima\ de abismos não abertos\
 ainda ou flor que anima\ a pedra no deserto”
Nelson Ascher
     Entre as aparições,dois caminhos  imprimiram presença ao preparar e escolher mais presente que provocação aos participantes da edição fevereiro#16 da série Inéditos Et Inacabados,conduzida tão passada a limpo por Escobar Franelas para a Casa Amarela, foram necessários muitos deitar o corpo na cachoeira corona, para resfriar também por dentro o coco desse careca que empacota o presente  mimo.
 Ainda assim um tanto tonto entre dois polos energizados, ir à busca do papelpalavraadequado para embrulhar as idéias que fossem mais legítimas ao desejo íntimo do sujeito, fosse de brocados ou biscuit bacana ou a folhada bananeira, seria necessário algo que fosse mais que a luz no fim do túnel, que pudesse confirmar a voz que contra pontava o coração: “não devemos falar a língua dos outros e nem utilizar o olhar dos outros, porque nesse caso existimos através do outro. É preciso tentar existir por si mesmo” é o Evgen Bavcarno filme Janela da Alma. Então para que se achar, além de se perder para fluir ainda mais o jogo¿.
Talvez fosse necessário consultar o melhor amigo do homem e perguntar ao cão domesticado quais as sensações de rodar atrás do próprio rabo em sentido horário ou antí. A beleza está nos olhos de quem vê! Mais uma vez esses dias de viver #16 impõe outra deliciosa saída parafora do ramo, do rumo, no limo do remono ar de fora...“Com tantas coisas para tomar emprestado, sinto-me feliz se posso roubar algo, modifica-lo e disfarçá-lo para um novo fim!” Enrique Vila-Matas:perder-se, achar-se, Inspirar o ser! Inté expandir até o nada.
     Perdido bem antes do meio do século mais esperado. Achar um mimo para a festa alegria e deleite dos parceiros de viagem é um exercício de arredondarseixos, cuja natureza mais íntima é rolar águas... perder-se... ”as coisas não são todas tão compreensíveis nem tão fáceis de expressar quanto geralmente nos fizeram crer. A maioria dos acontecimentos é inexprimível; ocorrem no interior de um recinto no qual jamais palavra alguma adentrou. E mais inexprimíveis do que qualquer outra coisa são as obras de arte”... trecho deuma carta deRainer M. Rilke. Cartas costumam ter um destino certo. O destinatário de Rilke é um jovem poeta. Ora, segundo as virtualidades espaço temporais #16, jovem é quem quer!
     Então vale tomar essas dúvidas e dividi-las ao bel prazer em descaminhos contínuos ou não. E tem razão aquel@s que acreditaremsempre tem mais uma vida no drive, se a bateria acabar antes do fim do túnel.
Advertência: Vale roubar! Há multa para desperdício!

Cláudio Gomes, verão #16.


Todas as atividades da CAEC são de acesso livres, entrada gratuita e começam rigorosa e brasileiramente no horário!

CAEC: R. Julião Pereira Machado, 7 - Pq. Sônia - S. Miguel (rua da escola Hugo Takahashi / atrás da escola Carlos Gomes / pertinho da SABESP)

domingo, 22 de novembro de 2015

Inéditos & Inacabados na programação da 2ª Mostra da Identidade e da Diversidade Cultural da Zona Leste de SP: textos escritos e discutidos



Inéditos & Inacabados - tema: deambular

textos lidos, apreciados e comentados:


poema de Sueli Kimura:

Teria a formiga inveja da cigarra? Se formiga cantasse e cigarra colaborasse Juntas, mundo afora, deambulariam?

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.

poemas de Enide Santos: Haicai: Esta corrente define haikai como um poema escrito em linguagem simples, sem rima, estruturado em três versos que somem dezessete sílabas poéticas; cinco sílabas no primeiro verso, sete no segundo e cinco no terceiro.
Haikai -16 Na poça do breu Nu, sem asas deambula A caça do amor Plêiades: É um poema de forma fixa, com uma estrofe de sete versos O título é obrigatório e deve ser constituído de apenas uma palavra. Os sete versos da estrofe são livres e não são rimados, mas devem começar com a letra inicial do título.
Plêiades: Deambule Descortinando de vez a rispidez do medo Descansa teus olhos em mim Desvista para sempre deste adeus Domando qualquer melancolia Desenhe fronteiras e ilhas, deambule. Despeje este grito trêmulo em meus ouvidos Dando luz a sua eterna fantasia. Acróstico é um gênero de composição geralmente poética, que consiste em formar uma palavra vertical com as letras iniciais ou finais de cada verso gerando um nome próprio ou uma sequência significativa. A palavra ACRÓSTICO originou-se da palavra grega Ákros (extremo) e stikhon (linha ou verso), onde o prefixo indica extremidade, apontando a principal característica desse tipo de composição poética: as letras de uma das extremidades de cada verso vão formando uma palavra vertical. Mas as letras podem também aparecer no meio do verso.
Acróstico: Deambular Deixou pegadas sem destino Emasculado vagueou Alma e corpo feridos Marionete do destino se tornou Banido dos desejos, fora. Usurpado sem perdão Lápide sem inscrição é seu coração. Abdicando de viver Rompe o tempo sem perceber. TAUTOGRAMA [origem grega, "tauto + grama" = igual + letra ; subst.masc , "o tautograma" .] Trata-se de uma composição poética em que TODAS as palavras começam com a mesma letra. A arte e desafio é uni-las com sentido e poética.
Tautograma: Deambular Diante Do Direito De Devanear Decidi Deletar Distâncias Depois, Demoli Dias Difíceis. Descortinando Duras Duvidas. Destemida Deixei-me Divagar Degustei Delírios Divinos Deslumbrada, Deambulei INDRISO Modalidade poética inspirada no soneto, criada por Isidro Iturat, espanhol, no início deste século. O Indriso é formado por 2 tercetos e 2 monósticos, num total, portanto, de08 versos, com métrica e rimas livres. Podem existir ou não. Tema: aberto. Verseja-se sobre qualquer tema. Esquema de versos: 3 / 3 / 1 / 1 Indriso: Deambulo Derramando-me entre os campos e as florestas Perfuro com fome o passado Entre os tempos e as horas certas Vou debulhando-me como flores que viram cisco Vou reparando em tudo sem saber o que dizer Vou vertendo-me devagar, sem prever. E em cada suspiro que dou, deambulo. Buscando incessantemente por ti, amor.

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.

poema de Rosinha Morais:

Errante Distorcida realidade Que me engole inteira Fronteira Entre o encontrar e o perder-se Caminho de destroços Onde pisam os pés cansados Levando ao desespero do existir Lodo purulento da indiferença Que corrói as entranhas Escorrendo em fétidas feridas Contaminando a alma Passo a passo O destino traçando curvas Levando cada vez mais longe Explorando trilhas difusas Um grito Perdido no meio do nada Encontra o próprio eco E se espalha na escuridão Despertando os fantasmas Que habitam o interior

x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.x.

Poema apresentado por Daniel Carvalho:

Memórias da terra Ae, galera, se liga que fita tem muita história que precisa ser dita. Na grande mídia, TV e jornais visão do pobre jamais é mostrada pros demais. Imortais! Aqueles que lutam por direitos essenciais; pros jornais, os sem teto são vistos como rivais de policiais irracionais; ademais, quantos confrontos, quantas mortes e funerais surgiram por conta daqueles que não aprenderam a dividir seus capitais. Vou contar o que rolou naquele dia só de lembrar já me arrepia tanta coisa naquela noite eu perdia trata-se da história do meu povo que só brigava por moradia 1987 ainda eu era pivete mas lembro até hoje da injustiça que esse ano reflete Não tínhamos casa invadimos um barracão de obras de uma construtora. O movimento que buscava por moradia crescia no mesmo ritmo do ódio daqueles que representam a lei. Mandaram a polícia desocupar toda a área mesmo que precisasse usar a violência. Tava a maior correria as crianças quase nada entendia só sabiam que era pra correr porque havia risco da gente morrer Demoliram nossos barracos queimaram nossas tendas governo pau-mandado dos donos de fazendas. Fomos desabrigados pelos Guardas do ódio Guardas da violência Guardas do medo Guardas da fome Guardas da terra Guardas da terra em que impera o clima de guerra Guardas da terra em que impera a luta de classe que só o pobre ferra Choros e gritos em meio ao tiroteio esperanças perdidas naquele mês de fevereiro um tiro soou mais forte que todos POW a bala de um fuzil atingiu o peito de Adão Manuel da Silva homem da terra pai de quatro filhos meu pai... ferido no coração... foi morto... Adão Manuel da Silva meu pai ainda hoje a lágrima cai... pelo homem que tentava a sobrevivência pelo homem de desobediência a esse sistema capitalista de incompetência meu pai, vítima da violência, acabaram com sua existência... Mas não com a nossa resistência A luta de Adão ainda existe dentro de nós sua força não nos deixou a sós mesmo após a sua morte! Assim faço minhas rimas em cima de uma história vivida infância perdida, família destruída! Até o direito de sonhar me foi negado pelos homens fardados pelo soldado que deixou meu pai baleado... ele era casado, tinha filhos, só tava desempregado, mas foi executado se eu pudesse teria matado o policial desgraçado que deixou meu pai no chão estirado! Quais foram meus pecados para ter meus sonhos em sem-terra naufragados? E ainda hoje chamam os sem-terra de invasores não conhecem nossas dores nem nossas cores e valores quantas Marias, Antonios Josés, Cidas e Dolores não têm jardim pra plantar suas flores quantos trabalhadores são vítimas de agressores de farda vítimas do preconceito dos conservadores consumidores de mídia hipócrita, barata e que só o lado mais fraco maltrata! O peito de um homem a bala abriu O sangue de um pai o cinza asfaltou coloriu A lágrima de um menino caiu A lágrima de muitos homens ainda vai cair por saudade, por desumanidade Esse é nosso B.O. pra eternidade

 https://www.facebook.com/akira.yamasaki.3/videos/973606559376976/?theater

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conto de Escobar Franelas:

Deambulâncias‭

A plataforma da estação estava lotada.‭ ‬E no momento em que o metrô se aproximou,‭ ‬senti que iria ter muita dificuldade para embarcar.‭ ‬A pequena multidão comprimia-se para invadir o trem,‭ ‬que parou num tranco só e abriu as portas com celeridade.‭ ‬Para minha surpresa,‭ ‬pude entrar sem maiores apertos.‭ 
Já‭ ‬dentro,‭ tentei reter os passos‬ junto à porta,‭ ‬observando os espaços que se abriam e fechavam,‭ ‬como uma glote de ferro e tecidos.‭ Solícita, ‬procurando onde encostar,‭ ‬fui empurrada pela brutalidade de um braço que abria um rio no meio da multidão.‭ Aturdida pelo‬ redemoinho que produzia estragos emtorno de mim,‭ tentei virar. E‬ntão ele passou,‭ ‬e no momento em que rompia barreiras junto ao meu ombro,‭ o‬s olhos gulosos e impacientes encontraram os meus. Uma tempestade banhou-me.‭ ‬Se estava frio,‭ ‬não sei,‭ ‬senti calor.‭ ‬Talvez estivesse muito quente,‭ ‬talvez não,‭ ‬senti muito frio naquela hora.‭ ‬Quando ele passou por mim,‭ ‬estacionou dois passos à frente,‭ ‬virou,‭ ‬e ficou ali,‭ ‬estático,‭ ‬dissimulado,‭ ‬o corpo num frenesi incompleto.‭ 
Não,‭ ‬não era bonito,‭ ‬diria até que ele era bem feinho.‭ ‬Cabelos meio desgrenhados,‭ ‬meio encaracolados,‭ ‬o nariz batatinha,‭ ‬os lábios assimétricos.‭ ‬Mas aquele sorriso contido,‭ ‬aquele olhar cheio de flexibilidades...‭ ‬percebi que olhava sinuoso em minha direção. Gelei.
Eu estava de camisa branca,‭ ‬de empresa.‭ ‬O sutiã‭ ‬também branco. E ele percebendo as rendas além da opacidade do tecido.‭ O‬ pavor tomou conta,‭ ‬baixei os olhos em câmera lenta,‭ ‬sorrateiramente,‭ ‬sem querer mostrar apavoramento, o gesto do braço a cobrir inutilmente os seios nus.‭ ‬Antes mesmo de baixar toda a cabeça,‭ sabia ‬que estava tudo bem. O tecido branco estava lá,‭ intransponível, ‬não tinha problema algum. Ninguém,‭ ‬ninguém mesmo, estava me tirando a roupa,‭ ‬nem ele,‭ ‬com aquele sorriso traiçoeiro,‭ ‬sorriso de garoto mal,‭ ‬venenoso.
Fui percebendo o ridículo daquele exercício.‭ ‬Me desolhando difuso, todo torto, a cadapiscadela trepidava minhas pupilas desencontradas. Minha provocação‭ – ‬se é que era provocação e se é que era minha‭ – ‬era exclusivamente pelo fato de estar ali,‭ ‬braços aberto,‭ ‬como um cristo prestes a ser crucificado,‭ ‬espalhando a falsa lucidez de um corpo desalinhado e quente.‭ 
O perfume que passara displicentemente em alguma hora da tarde diluía-se num mar de suores frios,‭ ‬ganhava novos aromas,‭ ‬numa alquimia imprevisível,‭ ‬onde o corpo exalava o calor de uma tensão incontrolável.‭ 
Lembro que tinha um livro na mão.‭ ‬Não me pergunte o título,‭ ‬nem o assunto,‭ ‬nem o autor.‭ ‬Eu me entregava à languidez daquela hora e a utilidade objetiva daquela peça de papel em minhas mãos agora era o de distrair mãos e olhos.‭ 
Sei que meu olhar inquieto me entregava.‭ ‬Devia deixá-lo intrigado,‭ ‬com os gestos serelepes de quem procura disfarçar porcamente uma leitura que não passava de clarão diante dos olhos.‭ ‬Meus olhos,‭ ‬assumo agora,‭ ‬o seguiam sem o fitar.‭ ‬A lava quente que brotava de meus poros me agonizavam,‭ ‬coçavam na pele,‭ ‬desciam como água benta que brotavam de um cântaro sagrado,‭ ‬gelavam minha pele,‭ ‬o coração pulsando inconstante.‭ Ele‬,‭ ‬ao contrário,‭ ‬dançava comigo um balé trôpego. Minha camisa transparente,‭ ‬com o desenho hiperanimado de meu sutiã,‭ ‬com minha carne morna,‭ ‬com minha seiva viva, era teatro vivo, concerto de uma peça sem roteiro.‭ ‬Cada vez que o encarava,‭ ‬com o sacrifício da sutileza,‭ ‬com o arrepio do disfarce,‭ ‬ele estava em outras esferas,‭ ‬em outros lugares.‭ ‬Prostrado,‭ ‬adorado,‭ ‬abduzido,‭ ‬ainda assim tentava escapar com um cachorro vadio tenta fugir da carrocinha.
E o trem seguia.

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poema de Akira Yamasaki

sou um ponto negro

na escuridão furiosa



na claridade impiedosa

um voo de luz imundo



na eternidade silenciosa
só um pássaro sem voz

só uma gota no mar
uivando na lua cheia
só um grão de areia
só um cão solitário

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um texto em prosa e outro em versos, de Mário Neves:
O DEAMBULAR DA ALMA E A MINHA DÚVIDA

Sem inspiração, sem assunto, sem leme, sem lume e sem rumo, a minha mente vagueava o infinito a procura de palavras para criar um texto. Criar um texto não é apenas escrever palavras frias, é transpirar e viver e eu sentia a alma combalida, impotente dentro de mim mesmo. Nuvens cinzentas encobriam a minha imaginação sendo um obstáculo a encontrar um rumo, um tema ou um lugar.
Obstinado lutava e quanto mais lutava mais encontrava resistência, a minha imaginação tinha muita velocidade, mas nenhuma objetividade passava por ruas, rios, postes, pontes, sem se deter em nenhum ponto, foi quando deixei o pensamento flanar pelas suas próprias asas, solto a deambular a seu bel prazer pelos meus sentidos à procura de um porto.
Livre e sem ansiedade e depois de muito perambular por caminhos, veredas, becos, atalhos, enigmas e encruzilhadas a minha alma se acendeu e levou-me a escrever o perseguido texto.
Porém ao termina-lo uma dúvida pairou no ar, o texto seria mesmo meu? Ele não teria sido plagiado das palavras que minha alma roubou do dicionário? Não estaria o texto pronto dentro do grande livro antes mesmo que eu fizesse a minha colheita? Sei que colhi, mas quem plantou? Minha dúvida aumentou muito mais quando me recordei de uma afirmação do grande escultor Michelangelo que dizia:
“Como faço uma escultura? Simplesmente retiro do bloco de mármore todo o excesso, tudo que não é necessário. A obra está dentro da pedra.”
“Ser ou não ser” diria eu parafraseando Shakespeare; o texto é meu ou não é meu? Não sei... Só sei que estive aqui deambulando em pensamentos a escrever um texto pra chamar de meu e que não sei se me pertence ou se já estava escrito com todas as palavras e letras no bojo dos dicionários.

COLHEITA

Fiz um poema
para chamar de meu,
mas será ele mesmo meu?’

Não seria pretensão minha,
pode ser que antes mesmo
de criar o poema,
ele já existisse no bojo
dos dicionários?
Palavras soltas, dispersas,
mas loucas para se unirem
explodindo em poesia?

Sei que fiz a colheita
dos vocábulos,
mas quem fez o plantio?
Fiz um poema
pra chamar de meu
mais se é meu não sei.

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poema de Janete Braga, que, aliás não compareceu ao Inéditos, mas contribuiu com este texto:

Erva de Passarinho O nosso amor... tão bel, robusto, intenso! Já era... deu erva de passarinho ficou mirradinho, fraquinho, franzino, O nosso amor não canta mais a nossa melodia. Não canta, não chora, não respira, não dança, não deambula. O nosso amor vive em mim, O nosso amor vive em você... É seu e é meu, não é nosso. Se acabou, se se acabou... nosso amor, não era amor.