domingo, 5 de junho de 2016

Um Blablablá slâmico

Daniel, Mariana e Lucas: excelência em ideias e atos (foto Luka Magalhães) 


O Blablablá, roda de conversas infinitas que acontece bimestralmente na Casa Amarela desde 2013, é uma arena onde a rinha de ideias é bentivinda. Mais que isso, é incentivada. Muito mais que isso, é condição vital de existência. Pois entendemos que sem o confronto no mundo do pensamento não há resistência, avanço, sequência ou melhoramento. Mais que opostos, antagonistas podem (e devem) ser complementos.
Desde os primeiros encontros, a motivação principal dos debates tem sido encontrar protagonistas de diversos saberes e fazeres em todas as áreas que possam nos provocar, ampliando conhecimento,  cidadania e paixão pelo binômio arte e cultura. Baseado neste princípio, o encontro de sábado, dia 4 de junho, tinha como tema "Slam? O que é isso?". Nós, que atuamos nos cantos da cidade e degustamos a fina flor da arte e cultura produzida nessas bordas recheadas, sabemos que esse catupiry é iguaria fina: batalha de poetas que se sucedem no palco, competindo entre si para a melhor performance, cujos recursos são a voz e o corpo. Quem já viu, sabe: é apaixonante. Logo estamos a torcer por fulana ou sicrano, por maria ou zé, acompanhando abduzidos o timbre, o ritmo, o movimento dos braços, o jogo de pernas, os estertores do rosto e, principalmente, o caldo sonoro, a beleza daquilo que está sendo declamado pelas minas e pelo manos.
Convidamos para essa mesa farta a slamer (declamadora) Mariana Félix, que recentemente publicou seu primeiro livro, Mania (que será lançado no Sarau da CA em 10 de julho próximo) e os bróders Daniel Carvalho e Lucas Afonso (que já tiveram a oportunidade de lançar seus trabalhos em saraus recentes na casa).
Mariana Félix principiou sua fala informando que escrevia crônicas, quando conheceu o Movimento Aliança na Praça, que realiza um sarau mensal na Praça do Forró, centro de São Miguel. Alguns membros do MAP também organizam o Slam do Corre. Desde que conheceu este movimento, Mariana se dedica a escrever trabalhos para apresentar em slams da cidade. "Todo semana eu vou em pelo menos um", situou. Daniel Carvalho, que já trazia um trabalho poético consolidado (inclusive com publicação de antologias com seus alunos), lembra que foi em setembro do ano passado que conheceu a batalha dos slams, cuja força ideológica foi o que mais lhe chamou a atenção. "O slam é uma das grandes representações da poesia marginal", afirmou. 
Lucas Afonso relata que já vivia o movimento dos saraus quando, na Virada Cultural de 2013, viu um slam pela primeira vez. "No primeiro momento eu não gostei, por causa da ideia de julgamento da poesia", sinalizou, mas "depois que conheci o pessoal 'atrás do palco',  percebi que era um movimento de troca, de compartilhamento. No metrô, já vim pensando em escrever...", finalizou. Hoje ele é organizador do Slam da Ponta, na Cohab II, em Itaquera.
Após a apresentação, iniciou-se um intenso bate-bola com perguntas e respostas. A provocação inicial foi de Sueli Kimura, educadora e uma das gestoras da Casa Amarela. Ela queria saber mais detalhes de como é a batalha, ao que Mariana disse que uma das prerrogativas é que a poesia nunca pode ser repetida, então quem vai ao palco tem que ter um "estoque" razoável. Já Daniel informou que no início o microfone é aberto, igual à maioria dos saraus, enquanto Lucas lembra que este tipo de rinha atrai muito os jovens. 
Luka Magalhães, outro gestor da Casa, questionou sobre a perspectiva esportiva do slams, se há estratégias para ganhar. Mariana disse que procura não repetir o tema abordado por quem foi antes dela. Lucas fez um um enunciado sobre a escolha das roupas e a forma como a(o) slamer se comporta no ambiente, como condicionantes de uma boa performance. Daniel lembrou novamente do microfone aberto antes do início do slam, que serve como preparação para a competição.
Flávia Rabelo, que acompanhava Lucas Afonso, quis saber se há meios de saber se a poesia que está sendo escrita será usada no slam ou não. "Escrevo música, depois penso se pode ser recitada não", responde Lucas. Já Daniel afirma "quando escrevo um texto, já vou separando, ' esse aqui é para o slam, esse não'... ". Mariana, todavia, afirma não saber se o que faz é poesia. "Eu não sou poeta", diz. E complementa, "eu posso ir para uma batalha com uma crônica".
Muitas considerações são feitas pelo público presente. Akira Yamasaki - poeta e também gestor da CA - comenta dos riscos no equilíbrio entre a qualidade de um texto poético em contenda com o grito ideológico. Eder Lima, educador e músico, questiona a falibilidade da classificação por mérito, que pode não revelar a qualidade de um trabalho em detrimento de outro. Gustavo Cruz, poeta presente ao Blablablá, refere que só entendeu melhor a proposta do slam quando soube da máxima de que 'no slam não há derrotados, só respeito de ponta a ponta'. 
Segundo o entendimento geral descrito pelos convidados, slam é uma onomatopéia, repetindo o som do movimento brusco de uma porta. Eu acreditava que tinha a ver com um match de tênis, afinal temos aí vários slams mundo afora, como o campeonato mundial disputado em Paris por Lucas Afonso há menos de uma semana, onde ele heroicamente chegou à semifinal. Resgatando o poeta João Cabral de Melo Neto em seu poema Tecendo a Manhã, em que um galo retoma o grito de outro para confeccionar o tecido do dia, pego emprestado um aforismo de Maria Félix, "não vou retroceder desse lugar onde resisto. Em minha vivência, é o espaço mais democrático", para juntar a Lucas Afonso que assevera "a gente tem muito que crescer. Pra crescer, só vivenciando". E uni-lo a Daniel Carvalho, cujo mote é "a Academia tem a poesia como contemplação ou prazer estético, não como uma luta social".
A compreensão mais completa, porém, é a de que a batalha com poesia falada é uma fortaleza da cidadania, abarcada a partir da prática de uma expressão artística que afirma-se através da voz e do gesto. Até porque, como disse Daniel Carvalho em algum momento do encontro, "o texto para o slam tem como princípio a oralidade, e não a escrita".






Texto: Escobar Franelas
Fotos e arte do convite: Luka Magalhães

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