segunda-feira, 26 de maio de 2014

Chuva em Santo Antonio da Imperatriz

PEQUENA LEITURA DO POEMA “CHUVA EM SANTO AMARO DA IMPERATRIZ" de BIG CHARLIE

Tenho colocado alguns livros de literatura e poesia na cabeceira da minha cama, livros esses que chegam até mim através dos saraus e eventos promovidos na Casa Amarela. Gosto muito leituras pesadas, que coloquem em xeque as várias camadas obscuras do pensamento deixando os gêneros poesia e conto como formas de interlúdio ou ponte entre leituras de enunciados filosóficos. Não que a poesia não esteja contida em textos de maior alcance teórico, para isso basta se entranhar nos melancólicos e angustiados românticos e existencialistas. 
Faço essa introdução para chamar a atenção a um momento que me ocorreu no 23º Sarau da Casa Amarela após a leitura de alguns de seus poemas por Ligia Regina e Akira Yamazaki na abertura do evento, o que me fez ler numa só tacada o livro “Cavalos no Peito” do grande “Big” Carlos Alberto Rodrigues “Charlie” logo ao chegar em casa. Me chamou a atenção especialmente os poemas que se referem às lembranças da outrora pequena cidade, suas lembranças, hábitos cotidianos e imagens acerca de um naturalismo nostálgico. 
No entanto, nesse pequeno texto, faço uma breve leitura de um de seus poemas e o relaciono ao conceito de arte Naif, considerada por muitos como pinturas ingênuas, ou primitivas (do qual discordo) porém, dotadas de uma poesia e um lirismo extremos.

Quando passo os olhos por "Chuva em Santo Amaro da Imperatriz", (P.30 -Ato 13), percebo pinceladas suaves, cores vivazes em alguns trechos e a chuva lavando e suavizando o azul claro em segundo plano dos montes esverdeados num primeiro olhar. Quase ouvimos o som dos tambores e trovões. A imagem do rio seguindo seu caminho desbravando os limites da cidade, lambendo vidros e paredes nos transporta de volta à cidade grande. Ou será que a pequena cidade crescera? Acredito que não. Na linda imagem criada pelas vivas palavras do poema vemos bois, cercas e porteiras junto aos carros e corpos boiando nas águas. A chuva derrama suas lágrimas sobre o leito do rio. No entanto indiferente ao choro incontido do céu cinzento sem que suas águas sejam sempre as mesmas, ele, o rio, prossegue incólume, até o grande encontro mar adentro.

Uma outra cena contrasta com as imagens anteriores. O local? A soleira de uma casa em Santo Amaro da Imperatriz.

"Acordei com a chuva dando na eira
A ressaca me guiou até a beira
Soleira da casa
Cascata de lavar alma
Renove-me pra outra lavada" 

(ATO 12 - Despertar da Tarde. P.30)

Essa pequena pintura feita de palavras abre o caminho para a grande chuva purificadora que viria. O cheiro da terra molhada seria esquecida pela tragedia. Mas a cascata lavaria toda alma. Por inteiro. Ou os arrastaria, a todos, ao rio em sua grande ânsia de mar. Sinto os respingos dessa viagem. A umidade da cena não turva o brilho da pintura-poesia de Carlos Alberto. Cada palavra sua traz a experiencia do novo. Experienciado. Um mundo criado escrito por uma tinta-terra, que como um quadro de Diego Rivera germina sob nossos pés. Os cavalos do nosso peito se tornam alados.
Eder Lima – 25/05/2014

Virado na Virada - Um fim de semana cultural

Olá, caros leitores.

O fim de semana passado, assim como tem sido ultimamente, foi mais uma prova de que os olhos estão voltados ao extremo leste da cidade de São Paulo, como bem diz meu amigo Escobar Franelas, em especial Itaquera e adjacências.

Por conta do primeiro jogo oficial no Estádio Itaquerão, Arena Corinthians, Arena São Paulo, Arena Itaquera, ou seja lá qual for o nome que realmente será dado à nova casa do Timão, tivemos um aporte de jornalistas, torcedores e curiosos em terras nossas. Alguns ali estiveram pela primeira vez. Nesse caso, independente de você ser corinthiano ou não, vale pensar na região não só como fonte de notícia das páginas policiais ou como matéria de uma terra distante e precária. É bem verdade que o estádio em si não trouxe modernidade, mais infraestrutura para o bairro (além de túneis e viadutos), mais investimentos em saúde, educação e moradia. Continuamos com as mesmas dificuldades para atravessar a cidade para trabalhar e com os velhos problemas de outrora. Há muito a melhorar, mas essa exposição é um auxílio para que a população passe a cobrar o melhor uso de seus impostos e o valor de seu voto.

Porém, minha abordagem aqui não é meramente panfletária. É preciso enaltecer também a contribuição cultural da região nesse fim de semana. Cito aqui dois eventos que partilhei: a participação do Sesc Itaquera na 10ª Virada Cultural da Cidade de São Paulo e o 23º Sarau da Casa Amarela de São Miguel Paulista.

A programação do Sesc Itaquera, local de ampla área verde e com diversas atividades de cultura e lazer, começou na noite fria de sábado com um show eletrizante de Edvaldo Santana e banda, que esquentou o público com ritmos que vão de samba e xote a reggae e blues. Edvaldo é egresso de São Miguel Paulista, ex-integrante do grupo Matéria Prima e um dos muitos artistas que formavam o MPA (Movimento Popular de Arte); é uma figura carismática e extremamente conhecida no meio artístico, tendo feito parceria com grandes nomes como Tom Zé, Paulo Leminski, Ademir Assunção, Haroldo de Campos, Arnaldo Antunes, Lenine, Além dos bons e velhos parceiros de MPA. Na sequência da programação do Sesc, Zé Geraldo cantando com sua filha Nô Stopa e participação especial de Chico Lobo, violeiro, cantor e compositor mineiro. Zé Geraldo, por si só, já contagia a massa e faz com que todos cantem seus sucessos, tanto os antigos, porém, com temas ainda atuais, quanto os mais recentes. Nô Stopa cativa pela bela voz, a presença de palco e o carisma. O convidado mineiro Chico Lobo deu um show à parte, extraindo belíssimos acordes de sua viola de 10 cordas. Essa foi a primeira etapa, pois já sabia que viria muito mais no domingo.

Sarau contagiante tem de tudo um pouco, não é mesmo? O 23º Sarau da Casa Amarela de São Miguel foi assim. Desde o início até o fim, desfilando o talento de seus artistas, uma paleta multicor, com texturas e nuances para compor o belo quadro eclético que tão bem representa nossa diversidade cultural, um a um, em grupo ou sozinhos, assumiam a batuta e comandavam o espetáculo naquele palco, que apesar de aparentemente pequeno, se agiganta com a presença do artista. O sarau tinha como pontos centrais o lançamento do livreto de Carlos Rodrigues (Big Charlie), Cavalos no Peito, já comentado aqui por João Caetano do Nascimento; a promoção, por meio de um “segundo” lançamento, do livro de Escobar Franelas, Itaquera: uma breve introdução; e o convidado igualmente especial, Adilson Aragão e Banda, apresentando músicas da Ousados e Seminovos e de outros projetos dos músicos. Adilson relembrou seu tempo de banda de formatura e barzinho, onde tocava todos os gêneros e outros “causos” mais pitorescos. Brindou a todos com músicas que iam de MPB ao rock clássico e blues, fazendo a abertura e o encerramento do evento.

Por aquele cantinho sagrado, com microfone aberto e equipamento a postos, também passaram Big Charlie, Luka Magalhães, Manogon, João Caetano do Nascimento, Ligia Regina e Eder Lima, Arnaldo Bispo, Euflávio, Gilberto Braz, Seh M. Pereira (que trouxe beleza aos olhos e ouvidos com um quadro e poesias de Neuza Ladeira, artista plástica e poeta mineira), Rosinha Morais, Inês Santos (recitando poemas seus e da poeta capixaba Cris de Souza), Punky Além da Lenda, Sacha Arcanjo, Romildo de Souza, Ceciro Cordeiro, Oswaldo Tiveron e Akira Yamasaki.

Por esses motivos, termino esse post com a sensação de que as coisas no extremo leste tendem a melhorar, se não no aspecto estrutural e “desenvolvimentista”, como diria Odorico, ao menos em cultura e lazer. Não se trata de distração para aliviar e sim de cultura para formar, informar e transformar. E que venha dia 30 de maio, com o Sarau da Casa do Chefe, no centro de Itaquera (ao lado do Terminal e do pontilhão da radial), a partir das 19h. E dia 31 tem o BláBláBlá na Casa Amarela, a partir das 16h, com a temática Futebol e Arte, sob a batuta de Escobar Franelas.

* Texto originalmente publicado dia 20/05/2014 na coluna da Zona Leste do Blog da Editora Nova Alexandria, a convite do ilustre Jeosafá Fernandez Gonçalves.

Manoel Gonçalves (Manogon)
Designer gráfico, ator e poeta. Escreveu por dois anos e meio para o blog e site Desabafo de Mãe, como pai convidado, para expor seu ponto de vista sobre a difícil e prazerosa arte de criar e educar as filhas. Participou também de outros blogs literários. Frequenta alguns saraus na grande Sampa. Mantém o blog Coisas de Manogon.

terça-feira, 20 de maio de 2014

Como foi a virada cultural, quer dizer, o sarau da Casa Amarela

Adilson Aragão: humor a serviço da boa música (foto: EF)
Big Charlie: poesia lírica, densa e debochada em "Cavalos no Peito" (foto: EF)



Mais de meia-noite, tinha chovido à tarde, uma brisa gostosa soprava em nossos rostos e um aroma de ar úmido, terra molhada, subia até os narizes. Eu e Raquel voltávamos do Terminal Rodoviário do Tietê. Tínhamos ido encontrar – apesar do cansaço extremo – a Raíra Moraes, que tinha baixado na Sampalândia para um bate-volta durante a Virada Cultural. Como não conseguimos sincronizar um encontro decente, fomos dar um abraço no momento em que ele embarcava de volta para Beagá. Felizes, contemplávamos uma lua minguante que prenunciava uma segunda-feira tranqüila. Apesar de muitos carros na Rodovia Ayrton Senna e Jacu-Pêssego, um trânsito tranqüilo permitia-nos que ouvíssemos com prazer aveludado “Belém. O Azul e o Raro”, cd que traz a poesia caudalosa de João Jesus Paes Loureiro, alguns musicados por Salomão Habib, um mimo da Raíra pra gente.
Em alguns momentos balbuciávamos palavras. Estávamos enlevados, embriagados pela tarde auspiciosa que tínhamos passado em boa companhia, durante o Sarau da Casa Amarela.
Capitaneado pelo infatigável Akira Yamasaki, e com o suporte luxoso de Sueli Kimura, Celinha Yamasaki, Eder Lima, Ligia Regina e Clarice Yamasaki, o sarau foi um desfile de pratos finos para nossos ouvidos e olhos agradecidos. Pelo palco da CA passaram naquela tarde e noite, Adilson Aragão e sua banda Ousados e Seminovos, Big Charlie, Luka Magalhães, Manogon, João Caetano do Nascimento, Lígia Regina e Éder Lima, Arnaldo Bispo, Euflávio, Gilberto Braz, Seh M. Pereira (exibindo em primeiríssima mão um quadro que ganhou da artista mineira Neuza Ladeira e recitando um poema da mesma), Rosinha Morais (debutando no espaço com belos poemas), Inês Santos (recitando poemas seus e da poeta capixaba Cris de Souza), Punky Além da Lenda (exibindo seu humor sempre cortante e um certo dote violonístico), Sacha Arcanjo (embevecendo o público com uma canja “democrática” de seus maiores sucessos – eu, aliás, escolhi “Boca Aberta”, uma da músicas mais líricas e pungentes do enorme repertório dele e Raberuan), eu, Romildo de Souza, Ceciro Cordeiro, Oswaldo Tiveron (cantando o “Pai Nosso” à capela) e o mestre de cerimônias Akira Yamasaki.
Vale lembrar que o evento era dedicado à obra do risonho Adilson Aragão, cantador de larga data que trouxe sua mini big band, Ousados e Seminovos, preenchendo o diminuto palco com músicas que contemplam gêneros como o rock, a bossa nova e o samba, entre outros. Biscoito fino para a plateia. E São Pedro gostou tanto do que estava acontecendo ali que brindou a Sampalândia todinha com a beleza de suas águas, dando um agradinho de pedras de gelo como brinde.
Antes, a Casa Amarela lançou oficialmente “Cavalos no Peito”, obra poética vertiginosa do Carlos Alberto Rodrigues, o escrachado videomaker "oficial" do espaço, popularmente conhecido como Big Charlie. A poesia do Big é big em todos os aspectos, conforme já relatei na apresentação do libreto. A obra foi criada e conceituada por um conselho editorial criado pelas mente incansável e inspirada de Akira, no qual ele me incluiu junto com Sueli Kimura, Luka Magalhães, João Caetano do Nascimento e Manogon. É a primeira incursão da CA pelo caminho editorial através do selo recém-criado, o Casa Amarela São Miguel Paulista Edições. Breve outras virão à luz.
No entrecho entre a apresentação de Big Charlie e o show de Aragão e banda, convidado por Akira, pude discorrer um pouco sobre o meu trabalho mais recente, “Itaquera – Uma Breve Introdução” (Editora Kazuá), um best-seller doméstico que está me dando muitas alegrias e fazendo com que durma menos que as costumeiras seis horas por noite.
Num fim de semana atípico, com Virada Cultural em Sampa, inauguração da Arena do Corinthians em Itaquera, uma chuva providencial e tanta gente bonita e amiga pra se beijar e abraçar, fica a dúvida se a poesia não estará extrapolando nossos gestos. Fico sempre com a sensação de que a arte mais improvável made in Casa Amarela seja o cultivo de amigos, nesse jardim tão simples que tudo e todos, juntos e misturados, ajudam a semear, colher e distribuir.
O que é fato, porém, é que escrevo essas linhas nessa outonal terça pela manhã, mas ainda profundamente tocado pelas lembranças de um domingo que não termina, aqui em minha memória.
(Escobar Franelas)
CA: espaço para todos os cantos (foto: Raquel Ramos)

Lígia e Eder: fina flor da musicopoesia (foto: Raquel Ramos)

Seh trazendo Neuza Ladeira ao quadrado (foto: EF)

Rosinha Morais debutando no palco da CA (foto: EF)

Inês Santos debutando no palco da CA (foto: EF)

Punky: cultura, história, arte (foto: EF)

Euflávio: outro debutante? (foto: EF)

Sarau da CA: não para, não para, não para (foto: EF)

Sacha e Akira: foto que dispensa legendas (Raquel Ramos)

Tiveron: presente para o sarau (foto: EF)
Do sarau da CA até a rodoviária, 25 km só pra abraçar Raíra (foto: Raquel Ramos)

CA em  movimento (foto: arquivo S. Kimura/A. Yamasaki)
Retrato "oficial" pós-sarau (foto: arquivo S. Kimura/A. Yamasaki)


terça-feira, 29 de abril de 2014

"movimentações pela cultura", um livro essencial para compreensão dos movimentos e movimentações culturais na zona leste de sampa


o blablablá da casa amarela de sábado passado, 26/04/14, realizou
o lançamento do livro "movimentações pela cultura - um painel dos
movimentos culturais da região leste de são paulo de 1980 a 1990",
de autoria de patrícia freire de almeida, julio cesar josé marcelino e
joão luiz de brito neto, e editado pelo movimento cultural penha, o
mcp. não vou entrar no mérito das discussões e conteúdos surgidos
dos debates sobre este tema, mediados com maestria por escobar
franelas, que está cada vez mais craque em fazer a bola rolar com
suavidade no difícil meio de campo do blablablá que em abril teve
como convidados produtores e pensadores da cultura como patrícia
freire, almir bispo e tião soares. quero simplesmente dizer aqui que
saúdo o surgimento do livro "movimentações pela cultura", que lança
oportunas claridades e bem-vindas reflexões sobre os movimentos e
movimentações culturais ocorridas a partir dos anos 1980 na zona
leste de sampa. só quero dizer ainda que no calor das discussões o
meu velho coração sexagenário sofreu um baque e deu uma falhada
no momento que patrícia freire, coautora do livro disse que o ponto
de partida para escrever a obra foi o "1º congresso de movimentos
populares de cultura da cidade de são paulo", realizado no período
de 24 a 27/10/1985, no centro cultural de são paulo, e exibiu a todos
cartaz do evento. não sou um cara de bater no peito e dizer que fiz e
aconteci mas meu coração falseou porque foi minha a proposta deste
congresso e trabalhei dia e noite que nem um louco durante uns seis
meses para que ele acontecesse.

akira - 28/04/2014.




 fotos: Sueli Kimura/Clarice Yamasaki

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Todo último sábado de cada mês é dia de blablablar na Casa Amarela

A tal da foto ´oficial´ (foto: Célia Yamasaki)

Almir, Patrícia e Tião, questionados por Eder Lima, sob o olhar atento de Edvaldo Santana (foto: Ligia Regina)


O Blablablá é um projeto d´A Casa Amarela – Espaço Cultural, nascido da ânsia pelo entendimento do que acontece nos territórios marginalizados. Baseados nessa premissa, buscamos a excelência de idéias daqueles que se propõem a pensar o fazer cultural sob essas condições. Não somos modestos, queremos as histórias e memórias, a argúcia e a sagacidade, a ousadia e a sensibilidade. Queremos a revolução não estacionária, a evolução orgânica e constante.
Para tanto, a edição de abril do Blablablá ousou contemplar os movimentos (ou melhor, as movimentações) culturais que se processaram no último quarto do século passado, em especial na região periférica de São Paulo e que desaguaram nesses treze anos da nova centúria. O seleto time que conseguimos prospectar para discutir essa pantomima tinha ninguém menos que Tião Soares e Almir Bispo (poeta e ator histórico militante cultural da região do Itaim Paulista, além da organização Movimento Cultural Penha. Representado por Patrícia Freire, o MCP lançou o livro Movimentações pela Cultura, um rico “painel dos movimentos culturais pela região leste de São Paulo”, como atesta o subtítulo da obra.
Após o brinde e os números musicais iniciais, com Lígia Regina e Eder Lima exibindo o primor lírico usual e depois a cereja do bolo com Edvaldo Santana, que, em visita aos familiares e amigos de São Miguel, aproveitou para dar um rasante sobre a Casa, os diálogos foram iniciados. Historiadora de formação, Patrícia principiou contando um pouco de sua história e a ligação com o MCP. Apresentou, a seguir, a obra que estava sendo lançada: “a gente precisava entender a nossa militância dentro do contexto histórico”, explicou.
Quem a sucedeu foi Almir Bispo, ator, poeta e militante cultural desde a década de 1980, que explanou a forma como o Centro Cultural Itaim foi criado. “Na época”, ele disse, “o Mário Covas veio no aniversário do Itaim, a gente aproveitou pra reinvidicar e ele disse sim. A partir daí, passamos a cobrar de maneira enfática e constante. Dois anos depois inauguramos o Centro”, afirmou. Explicando assim, parece que foi tudo fácil. Mas não. O poder público, segundo ele, voltou atrás e travou o processo diversas vezes, mas a perseverança na luta por um bem que toda a comunidade almejava é que permitiu o êxito da conquista. “Se hoje está aberto ou de portas fechadas, se funciona bem ou mal, isso eu não sei, faz tempo que não vou lá. Mas na época conseguimos o principal, conquistamos o Centro Cultural para o bairro”, sentenciou.

“A política pública é quem determina, não o fazer cultural” (Tião Soares)

Provocado por este escrevinhador a fazer uma analogia entre as movimentações culturais e as manifestações de junho de 2013 pelo Brasil, Tião Soares, com a perspicácia de sempre, iniciou sua preleção afirmando que “desde a década de 1930 já rolavam movimentos, tutelados pelo Estado”. Doutor em Ciências Sociais e com um caudaloso histórico de produtor cultural, Tião estabeleceu uma linha cronológica para elucidar a perspectiva sobre como os movimentos (ou movimentações), estabeleceram paradigmas que foram sendo apontados e superados, dentro dessa linha do tempo. Para tanto, faz uma análise sensível das mudanças ocorridas junto com esses ventos de mudanças que ocorriam junto à abertura política que o país enfrentava no fim dos anos 70. Disse “o sindicalismo dos anos 70 e 80 era autônomo em relação ao sindicalismo dos anos 30 e 40. É nesse contexto que nesse período surgem os Clubes das Mães, que na zona leste fez nascer o Sistema Único de Saúde (SUS). Concomitantemente, é também na mesma região que nasce o Movimento Pela Moradia, os Mutirões, o Movimento de Creche”.
Edvaldo Santana, sentado na primeira fila, completa: “E o Movimento das Favelas”. Tião concorda e arremata, “quanto à analogia com as manifestações de junho último, temos que considerar que há por aí muito coletivo de uma pessoa só, o que é uma incongruência, um fragmento da movimentação anterior
Eder Lima, professor e músico da Casa, o interpela: “no período da abertura houve uma visibilidade dos movimentos sociais mas na área da cultura houve um arrefecimento de forças”. Novamente Tião concorda e complementa: “a gente hoje observa essa fragmentação nessas manifestações, em que a política pública é quem determina, não o fazer cultural”. 

“a indústria cultural vai deixar de existir com essas novas tecnologias”( Almir Bispo).

Júlio Marcelino, ativo militante cultural e social na região da Penha e também um dos autores do livro Movimentações Pela Cultura, explicita “a Cultura, na visão de alguns gestores públicos, ainda é apenas uma ´cereja´”. Almir Bispo confere: “a indústria cultural vai deixar de existir com essas novas tecnologias”.
Retomando a palavra, Tião diz “os editais diferem dos movimentos orgânicos, como o Movimento Popular de Arte (MPA) e outros. Isso é provisoriedade, não é regular ou horizontal. O cara tá nesses CEUS, nesses Pontos de Cultura, que nem robô, onde muitas vezes impera uma estética sem ética”.
Danize Dagmar, uma das depoentes do livro que estava sendo lançado, pediu para explicitar a importância das relações dentro dessas movimentações culturais que estava sendo discutidas. Segundo ela, “as mulheres da periferia não apareciam, mesmo dentro desses movimentos”. Mesmo assim, ainda de acordo com seu depoimento “ver o MPA abrir mão de dinheiro do Estado foi uma felicidade, a gente viu que não estávamos sós, como a voz que clamava no deserto”. Ainda assim, Almir rebateu “a gente tem que buscar o edital. É uma conquista, um direito”. Cláudio Gomes, poeta desde o início do MPA, discorreu que “essa política de editais e prêmios é igual aos tempos coloniais: ´vamos alegrar o feitor que ele nos leva pra festa´”.
O avanço do debate indica que há uma leitura bastante heterogênea do que é política cultural, cultura e política pública de cultura. Tião Soares identifica essa fissura na discussão e pontua com outra provocação: “também há pessoas que não sabem a diferença entre administração e gestão”. A discussão avança carregada de proposições e de observações sobre acertos e erros da militância. Tanto que em dado momento, Akira Yamasaki, poeta, produtor e também um dos gestores da Casa Amarela, imprime sua marca, quando explica o Congresso de Movimentos Culturais, que estava sendo questionado naquele momento. Disse ele, “esse Congresso foi uma idéia minha, quando trabalhei na Secretaria Muncipal de Cultura. E tomei muita pedrada por isso. Era pra ter tido outros, o segundo, o terceiro, mas daí travou, parou tudo”. Ao que Tião placidamente contemporizou: “a cultura é conservadora, a arte é que é transgressora”.

“a história oral é um mecanismo essencial, pois a “história oficial” é sempre escrita pelo vencedor” (Patrícia Freire)

O Blablablá caminhava pra mais de duas horas de intensos e acalorados diálogos, quando propus a sua finalização e então Patrícia nos apresentou este apêndice: “nosso trabalho foi pautado na história oral. Na zona leste, a história oral é um mecanismo essencial, pois a ´história oficial´ é sempre escrita pelo vencedor”. Se quisermos saber uma verdade mínima dos fatos, não podemos esquecer esse detalhe.
Para avançar pra mais de três horas de evento, então ganhamos um show acústico de Edvaldo que, de posse do violão-banquinho-microfone, destilou sua poesia refinada para o público que continuava ali, sem arredar os pés. E quando convidou Lígia Regina para cantar com ele Canção Pequena Para Ninar Gente Grande, poema do Akira musicado por ele, a Casa Amarela pareceu ficar suspensa numa nuvem, com uma aura evanescente, equilibrada numa luz entre o sol e a lua.
Qualquer tentativa de explicar essa sensação vai dar em nada. Só quem estava ali saberá entender esse delírio.

Escobar Franelas 

Blablablá: um brinde à arte do encontro (foto: Ligia Regina)

Plateia degustando Edvaldo Santana (foto: Ligia Regina)

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Sarau da CA recebe Vlado Lima e Grupo Ururaí

Arte de Manogon

Akira e Vlado: mestre e mestre (foto: arquivo pessoal A. Yamasaki/S. Kimura)



Uma crônica amarela

Pensei em iniciar esse texto falando bem do Akira, da Casa Amarela ou do Vlado Lima. Talvez do grupo Ururaí ou um dos convidados do Sarau de abril da Casa Amarela. Pensei em escrever lembrando que não pude participar, pois estava ocupado com as questões de produção do cd do mesmo sarau, que está em fase de produção. Pensei em mil justificativas ou conjeturas, o que dá na mesma: vou acabar falando do que não vi, apenas ouvi. Intuo que este texto vai sair melhor (ou pior, como queiram!) do que tentei. Bem, vamos lá!
Segundo o dicionário virtual Priberam (http://www.priberam.pt/dlpo/sarau), sarau é um substantivo masculino e significa “festa .noturna em que há dança, música, canto, etc”. Só isso? Não pode ser. O dicionário, que tanto tem me ajudado nessas décadas todas com minhas práticas, ainda assim às vezes torna-se frio e insensível ao sangue que forra minhas veias por dentro. Se alguém quiser adicionar um pouco mais de tempero, de alma, de experiência viva nessas linhas dicionáricas, que seja um ser menos “quadrado”, mais chegado a uns bons goles, ou algo que tire seus pés do chão bruto. Que, antes de escrever qualquer linha a partir do “pai dos burros”, que passe um domingo na Casa Amarela – Espaço Cultural. Depois, sim, pode-se meter à besta em escrever. E se escrever mal, estará perdoado, terá sido por conta dos excesso dominicais naquele templo onde se celebra a deusa Poesia.
Foi lá que no domingo último pude conhecer a obra sarcástica e carregada nas tintas dos pecadilhos (primo0irmão do trocadilho), do cantor, poeta, apresentador e mestre de cerimônia (sem cerimônias) Vlado Lima.
Ele, acompanhado de Edu Tiba (trompete), fez que fez, inventou, riu, cantou, declamou. Apropriou, mentiu, trovejou. Riu, provocou, serenou. Fez mais, diz que compôs, fez que fez, até me encoxou. Mas depois de fazer todo mundo rir à beça com o humor, o lirismo e a ironia fina, cedeu lugar para as aves canoras de São Miguel, de Baquirivu: o grupo Ururaí (Ojana Gouveia, Ademar, Celina Sales, Mauro Paes, Érika Porto, Cida Camargo, Janete Amaral), é justo dizer, seqüestrou todos os meus sentidos, todos os sentidos de todos.
Deixou-nos atônitos, sem chão para pouso. E se posso viajar nas idéias sem medo de ser e fazer-se feliz, afirmo que nesses anos todos de residência na Casa Amarela, ouvir Ururaí foi uma das experiências sensoriais mais avassaladoras que tive. Um primor para os ouvidos, um espetáculo para a alma. Transcendente.
Após essa elevação dantesca ao paraíso, eis que somos tomados pelos braços pelo leme seguro do mestre Akira e recebemos mais lufadas poéticas e musicais de Terê Cordeiro, Ojana Gouveia, Yuri Cortez, João Caetano, Paulinho dhi Andrade, Alexandre Santo, Manogon, Ligia Regina e Eder Lima, Sandra Frietha, Luiz Flávio, Cida Camargo e Ademar, Luka Magalhães, Celina Sales, Zulu de Arrebatá, Santiago Dias, Inácio Fitas, Guilherme Maurelli, Cicio Bonneges, Ricardo Soares, Carlos Bacelar, Ronaldo Ferro mais trio (Loucas Moura, no violão, Gabriel Moura, no carron e Gabriel Tavares no baixo), Seh M. Pereira e Paulo Gonçalves.
E se Seh trouxe lá das “Minas Geraes” a arca do tesouro abarrotada com o ouro da poeta Adriane Garcia, Fábulas Pra Adulto Perder o Sono (ganhador do Prêmio Paraná de Literatura-2013, categoria Poesia), e se Vlado relançava Pop Para-Choque (vendeu a dúzia de exemplares que trouxe logo na primeira meia-hora de evento), e se tudo isso que relato foi só de orelhada, ocupado que estava lá no fundão, então, cuidemos, louvemos, oremos, rezemos pelos nossos ouvidos e todos os outros órgãos de sentido. Pra que continuemos a ser presenteados com a graça da boa companhia, boa e inspirada companhia.

Escobar Franelas
O grupo Ururaí aclamado pelo público do sarau (foto: arquivo pessoal A. Yamasaki/S. Kimura)
Alexandre Santo (foto: arquivo pessoal A. Yamasaki/S. Kimura)

Casa cheia (foto: arquivo pessoal A. Yamasaki/S. Kimura)

Foto "oficial" (foto: arquivo pessoal A. Yamasaki/S. Kimura)

Nenhum sorriso é amarelo na Casa Amarela (foto: arquivo pessoal A. Yamasaki/S. Kimura)


Sarau da CA recebe Vlado Lima e Grupo Ururaí

Arte de Manogon

Akira e Vlado: mestre e mestre (foto: arquivo pessoal Akira Yamasaki)



Uma crônica amarela

Pensei em iniciar esse texto falando bem do Akira, da Casa Amarela ou do Vlado Lima. Talvez do grupo Ururaí ou um dos convidados do Sarau de abril da Casa Amarela. Pensei em escrever lembrando que não pude participar, pois estava ocupado com as questões de produção do cd do mesmo sarau, que está em fase de produção. Pensei em mil justificativas ou conjeturas, o que dá na mesma: vou acabar falando do que não vi, apenas ouvi. Intuo que este texto vai sair melhor (ou pior, como queiram!) do que tentei. Bem, vamos lá!
Segundo o dicionário virtual Priberam (http://www.priberam.pt/dlpo/sarau), sarau é um substantivo masculino e significa “festa .noturna em que há dança, música, canto, etc”. Só isso? Não pode ser. O dicionário, que tanto tem me ajudado nessas décadas todas com minhas práticas, ainda assim às vezes torna-se frio e insensível ao sangue que forra minhas veias por dentro. Se alguém quiser adicionar um pouco mais de tempero, de alma, de experiência viva nessas linhas dicionáricas, que seja um ser menos “quadrado”, mais chegado a uns bons goles, ou algo que tire seus pés do chão bruto. Que, antes de escrever qualquer linha a partir do “pai dos burros”, que passe um domingo na Casa Amarela – Espaço Cultural. Depois, sim, pode-se meter à besta em escrever. E se escrever mal, estará perdoado, terá sido por conta dos excesso dominicais naquele templo onde se celebra a deusa Poesia.
Foi lá que no domingo último pude conhecer a obra sarcástica e carregada nas tintas dos pecadilhos (primo0irmão do trocadilho), do cantor, poeta, apresentador e mestre de cerimônia (sem cerimônias) Vlado Lima.
Ele, acompanhado de Edu Tiba (trompete), fez que fez, inventou, riu, cantou, declamou. Apropriou, mentiu, trovejou. Riu, provocou, serenou. Fez mais, diz que compôs, fez que fez, até me encoxou. Mas depois de fazer todo mundo rir à beça com o humor, o lirismo e a ironia fina, cedeu lugar para as aves canoras de São Miguel, de Baquirivu: o grupo Ururaí (Ojana Gouveia, Ademar, Celina Sales, Mauro Paes, Érika Porto, Cida Camargo, Janete Amaral), é justo dizer, seqüestrou todos os meus sentidos, todos os sentidos de todos.
Deixou-nos atônitos, sem chão para pouso. E se posso viajar nas idéias sem medo de ser e fazer-se feliz, afirmo que nesses anos todos de residência na Casa Amarela, ouvir Ururaí foi uma das experiências sensoriais mais avassaladoras que tive. Um primor para os ouvidos, um espetáculo para a alma. Transcendente.
Após essa elevação dantesca ao paraíso, eis que somos tomados pelos braços pelo leme seguro do mestre Akira e recebemos mais lufadas poéticas e musicais de Terê Cordeiro, Ojana Gouveia, Yuri Cortez, João Caetano, Paulinho dhi Andrade, Alexandre Santo, Manogon, Ligia Regina e Eder Lima, Sandra Frietha, Luiz Flávio, Cida Camargo e Ademar, Luka Magalhães, Celina Sales, Zulu de Arrebatá, Santiago Dias, Inácio Fitas, Guilherme Maurelli, Cicio Bonneges, Ricardo Soares, Carlos Bacelar, Ronaldo Ferro mais trio (Loucas Moura, no violão, Gabriel Moura, no carron e Gabriel Tavares no baixo), Seh M. Pereira e Paulo Gonçalves.
E se Seh trouxe lá das “Minas Geraes” a arca do tesouro abarrotada com o ouro da poeta Adriane Garcia, Fábulas Pra Adulto Perder o Sono (ganhador do Prêmio Paraná de Literatura-2013, categoria Poesia), e se Vlado relançava Pop Para-Choque (vendeu a dúzia de exemplares que trouxe logo na primeira meia-hora de evento), e se tudo isso que relato foi só de orelhada, ocupado que estava lá no fundão, então, cuidemos, louvemos, oremos, rezemos pelos nossos ouvidos e todos os outros órgãos de sentido. Pra que continuemos a ser presenteados com a graça da boa companhia, boa e inspirada companhia.

Escobar Franelas
O grupo Ururaí aclamado pelo público do sarau (foto: arquivo pessoal: Akira Yamasaki)